PLAYGROUND PARA LOUCOS: OS VULCÕES DO EQUADOR

Engraçado como as coisas na vida se encaixam. Voltei da África desesperada porque ficaria quase 8 meses sem montanha, já que só poderia tirar férias de novo depois do carnaval. Legal porque poderia emendar o feriado e teria mais de 3 semanas. Ruim porque 8 meses são MUITO tempo. Mas trabalho vai, trabalho vem, me vi na obrigação de mudar a data das minhas férias senão perigava não conseguir viajar por conta de demandas de trabalho.

 

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Consegui jogar os dias junto com o ano novo, e 2 meses antes de embarcar me vi com quase 3 semanas livres e sem saber pra onde ir, numa época em que não é bom escalar em quase lugar nenhum, e todo lugar é caro pacas. Bem, dava no Equador, mas tinha medo do preço, do fato de as montanhas lá não serem necessariamente para super iniciantes como eu… mas Equador era a única opção, e no dia 28 de dezembro de 2012, embarquei pra Quito, pra ter minhas primeiras experiências de escalada em neve, em montanhas que não eram meramente walk up mountains.

Minha programação incluiu 2 vulcões de aclimatação, vários dias de descanso, e os 4 picos mais altos do Equador, inclusive 1 acima de 6 mil metros, e 1 montanha técnica. Sabia que a possibilidade de culminar todas era pequena, até por conta das condições climáticas que tem derretido as geleiras equatoriais e gerado uma série de problemas para os montanhistas. Além disso, não consegui treinar tão intensamente quanto gostaria por estar terminando meu projeto de TCC. Mas o pior de tudo, claro, são as coisas sobre as quais não temos controle, e este janeiro no Equador foi, na opinião de praticamente todos os guias que conheci, uma das piores temporadas dos últimos anos. Muita chuva, muito vento, muito calor, e consequentemente pouca neve nas montanhas, e de má qualidade, tempestades e empecilhos mil pra todo mundo que estava lá. Pouca gente culminou alguma coisa, e o sentimento geral entre quem estava lá pra escalar era de total frustração.

 

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ACLIMATAÇÃO

 

Nossa primeira caminhada foi até a cratera Paluluhaua, uma das poucas crateras habitada do mundo. Em vez de subirmos, vamos de carro até 3000m, e descemos até a cratera onde existem umas fazendinhas. Nesse dia deu canseira, mas era o começo, então aceitável.

A segunda etapa da aclimatação foi o vulcão Pasochoa, pertinho de Quito. Também vamos de carro até certo ponto, e de lá caminhamos algumas horas até seu cume (4200m), que é a parte mais alta da borda erodida. De lá de cima de um lado vemos Quito, e do outro a cratera já toda cheia de floresta, mas é uma visão bem bonita do contraste entre as gramíneas, a erosão da rocha, e o matagal embaixo.

Cume do Pasochoa, 4200m.

 

O vulcão ativo Guagua Pichincha, 4800m.

 

A terceira parte foi o vulcão ativo Guagua Pichincha (4774m), no dia 31 de dezembro. De novo, vamos de carro até a base, caminhamos por uma estradinha até um refúgio, e de lá tomamos uma trilha até o cume, andando pela borda. Esse dia estava bem nublado e com muito vento, então quando finalmente culminamos, ficamos bem pouco tempo até por conta dos gases que saem do vulcão, bem fedidos por sinal…

Felizmente ninguém do grupo queria fazer festa no ano novo, então demos um rolê no final da tarde pra ver o começo da festa, jantamos e fomos dormir cedo.

 

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CAYAMBE (5790 m)

 

Cenário desolador: 3 dias de muita chuva e ventos muito fortes nos prenderam dentro do abrigo por 3 dias, coroados por uma tempestade de neve que nos forçou a abortar a tentativa de cume.

 

Antes de ir pra Cayambe tivemos um dia de “descanso” (descanso do que?), onde iríamos pro mercado de Otavalo. Mas como o único dia do ano em que o mercado não funciona é 1º de janeiro, mudamos os planos e fomos pra Oyacachi, uma cidade bem pequena no lado amazônico dos Andes, mas com termas vulcânicas. Passamos a tarde lá, dormimos na hacienda mais antiga do Equador, e depois fomos pro refúgio.

Que estradinha dos infernos! Pior que essa só a que vai pro Monte Kenya. Já em torno de 4400m pegamos um misto de chuva e neve, e logo depois chegamos ao refúgio, onde o tempo estava totalmente fechado. Nesse primeiro dia, dentro do refúgio mesmo, fizemos alguns procedimentos de encordamento e auto resgate. O vento e chuva continuaram fortes por toda a tarde e noite. No dia seguinte o belga não estava muito bem e resolveu ficar no refúgio. Eu e a britânica tomamos coragem e fomos pra geleira fazer treinamento.

Não deu 5 minutos que saímos do refúgio e já estávamos ensopadas. Mas mesmo com a chuva e vento, minha luva de softshell ter aberto a costura e molhado tudo a minha mão, me diverti fazendo a aula na geleira. Tipo criança no parquinho, e se pudesse ficava mais… uma besta mesmo… minha falta de noção é impressionante até pra mim, mas enfim. Voltei toda feliz pro refúgio, torcendo pro tempo melhorar pra podermos sair na noite e atacar o cume.

Mas não melhorou. Fomos dormir cedo e acordamos meia noite pra ver como estava o tempo lá fora. Muita chuva e muito vento. Como decisão de grupo, e tendo já saído durante o dia, decidimos que não ia ser nem um pouco divertido ficar 12h nesse tempo, então voltamos pra cama. Cayambe, a primeira baixa da viagem.

Apenas um grupo com um alemão muito obstinado saiu (ele chegou a ter uma discussão com o guia, que já que tinha pagado, ia ter que sair e chegar no cume… blá blá blá… summit fever total), mas demoraram o dobro do tempo normal pra chegar na geleira, e voltaram em algumas horas. Tinha até uma guia britânico meio famosinho, desses patrocinados e que já fez Everest X vezes, com um cliente só, e ele mesmo não via sentido em sair com esse tempo. Fiquei frustrada, mas no clima a gente não manda, e não tinha o que fazer. Foi um aprendizado que mais cedo ou mais tarde aconteceria, então me conformei, afinal de contas, a montanha não vai sair de lá.

Quando acordamos de manhã, tudo em volta do refúgio estava coberto de neve. Teve uma tempestade durante a madrugada, e nevava muito de manhã. A estrada estava com bastante gelo, e a passagem por um precipício, com o jipe pesadíssimo e a terra congelada e escorregadia, foi talvez o momento de maior terror da viagem inteira.

 

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COTOPAXI (5897 m)

 

Tempo abrindo no Cotopaxi.

 

Tivemos mais um dia de descanso (descanso do que mesmo?) numa hacienda. No dia seguinte partimos para o Tambopaxi, uma pousada com cara de refúgio já dentro do PN onde fica o Cotopaxi. Nesse dia o tempo já estava melhorzinho, e dava pra ver o cume da montanha. Estávamos todos bem animados, com aquele feeling de que ia dar tudo certo, até porque tínhamos um dia de contingência, então se não desse certo na primeira tentativa, poderia dar certo na segunda.

No dia seguinte saímos cedo do Tambopaxi, em direção ao refúgio. Estacionamos a 4600m, e de lá subimos a pé com as mochilonas (uns 14kg) até 4800m. Cansativo mas deu pra fazer, foi uma breve experiência pra ter noção do que seria fazer uma aproximação de expedição, sem carregadores. O refúgio do Cotopaxi recebe muitos turistas, então o andar de baixo é uma zona de gente e criança correndo pra lá e pra cá. No andar de cima só entram escaladores, então é um pouco mais tranquilo e dá pra descansar. Almoçamos maior merreca de comida, e eu já de saco cheio de comer frango, me lembrei de quando estava no Peru, onde passei 40 dias comendo pollo con papas. Trauma! De tarde saímos pra fazer mais treinamento na geleria, e lá estava eu toda alegre na neve e gelo tipo criança quando ganha doce no parquinho. Meu doce é o crampon! Minha gangorra é a piqueta! Meu trepa-trepa é a montanha! Hahaha! Agora sério…

Como o Cotopaxi é a montanha mais “popular” do Equador, o refúgio é bem cheio e muito barulhento, então foi difícil dormir, e pouco depois que consegui dormir, já acordei de novo pra começar o ataque. De novo, não estava muito frio, talvez 0 graus à meia noite. Foi mais ou menos 1h30 de caminhada até o começo da linha da neve, e de lá até o começo da geleira, onde logo de saída, já tinha uma subida super íngreme. O bom é que como é muito frequentado, as trilhas são bem marcadas e a neve acaba bem compactada, o que facilita bastante a vida de todos. Ajudou que o céu estava limpasso, e a lua parecia enorme, bem perto de nós, uma visão inesquecível! Em compensação não parava de ventar, o que não é lá muito agradável, mas considerando que o tempo no país tava uma merda, pra mim tava ótimo!

A subida é uma sucessão de zigue-zagues e alguns cruzamentos de greta, mas nada muito assustador. Os momentos de emoção são quando temos que entrar dentro de uma greta pra depois subir meio que escalando com ajuda de uma corda, depois outro momento em que engatinhamos por uma passagem bem apertada e de gelo e com bastante exposição, e por último passamos por baixo de um serac também bem exposto. Lógico que na subida tá tudo escuro, então nem dá pra ter muita noção de perigo, mas na volta é que a gente olha pra baixo e vê aquelas encostas brancas que não tem fim, e daí a gente se liga do entorno. Bem perto do cume tem uma parte de uns 50 graus que tivemos que subir de front pointing também, depois mais umas subidinhas, e finalmente, às 7h50, depois de muito esforço, vento na cara o tempo inteiro, e andar num ritmo maluco (o guia indo na frente muito rápido, a britânica no meio muito devagar, e eu por último sem saber como manter um ritmo constante) chegamos no cume do Cotopaxi. O tempo estava meio fechado e não deu pra ver a cratera inteira, e eu estava tão cansada que nem tirei muita foto. Minha mochila tava coberta de gelo e não consegui achar minha bandeira, então tirei a foto mental e pra mim isso basta. Comi um chocolate, bebi água, tiramos umas fotos e começamos a descer. Pelo menos desta vez era só cansaço. Não tive dor de cabeça nem tontura, no quesito aclimatação, tava tudo perfeito. O que fez falta foi o treino mesmo (maldito TCC)…

Cume no Cotopaxi, 5897m.

 

Na descida o guia percebeu que a britânica tava malzona de alguma coisa, bem lenta mesmo. Então até chegarmos no fim da geleria pra poder desencordar, descemos muito lentamente, o que me deu oportunidade de ir tirando umas fotos. Os momentos que no escuro foram de emoção agora com a luz do dia poderiam ser de terror para alguns, mas lá estava eu, virgem das neves, achando tudo uma grande brincadeira, querendo ficar olhando as gretas, e até levando bronca por causa disso… Depois de desencordar, desci sozinha até o refúgio, e chegando lá já fui recebida com um sorrisão e parabéns dos guias e do belga. Descobri que vários grupos não fizeram cume, e que tinha um cara, um sueco-projeto-de-Ueli-Steck, que chegou no cume em 4 horas. Tava treinando pro Himalaia ou sabe-se lá o que…

 

 

Chazinho quente, descanso de uns 10 minutos, fechei a mala e descemos com aquela sensação muito boa de missão cumprida. Agora que o aquecimento tava feito, eu estava pronta pra atacar os dois principais objetivos da viagem. Agora sim o papo ia ficar sério!

 

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CHIMBORAZO (6310m)

 

Desde antes de sair do Brasil já sabia que as condições aqui eram ruins. Por conta da erupção do Tungurahua e as cinzas que caíam na área, o pouco de neve que tinha estava muito duro, consequentemente a dificuldade de locomoção aumentava, e pra piorar, estando a montanha “pelada”, havia o problema de desmoronamento de pedras numa parte abaixo do Castillo, chamada de El Corridor – uma escalaminhada não muito exposta porém bem chatinha por conta dos pedregulhos soltos.

Da pousada até o primeiro refúgio foram 4h de viagem, passando por algumas cidades menores, e finalmente mudando pra uma paisagem de gramíneas e vegetação de altitude, com muitas vicuñas (páramos). Já antes de entrar no PN Chimborazo a visibilidade era baixíssima. Subimos até o primeiro refúgio a 4800 de carro. De lá arrumamos as mochilas pra caminhar até o refúgio Whymper, a 5000m. Mais uma experiência nova! Carregar uma mochila de uns 16kg a 5000m de altitude, mas até que não foi difícil. Pra quem a seis meses achava que isso nunca seria possível, até que me surpreendi, mas acho que foi a aclimatação, que estava muito boa. Acho que levamos menos de 40 minutos de um refúgio a outro.

Chimborazo, vítima do aquecimento global, explosões de vulcões vizinhos… um gigante cada vez mais inacessível, mas possível. Fica pra próxima!

 

Como ambos estão começando a serem reformados, não tinha mais beliche, então tivemos que dormir no chão mesmo. Chegamos às 17h, jantamos, e às 18h fomos dormir. O tempo estava fechadíssimo e não dava pra ver 10 metros na frente. Acordamos às 22h, e com tempo super aberto, céu salpicado de estrelas, e zero de vento, comemos de novo e saímos pro ataque. Tava super confiante! Era a Pacha Mama deixando a gente subir! Mas a alegria durou pouco. Menos de 2h depois, estávamos a uns 5200 quando, do nada, bateu um vento de leve que foi suficiente pra fazer cair uma chuva de pequenas pedras sobre todo mundo que estava subindo (umas 10 pessoas). Pedras pequenas, do tamanho de uma bola de gude, porém vindo do alto bateram com força. E bota todo mundo se esconder atrás de blocões de pedra, e quando parou, descemos literalmente correndo. Decepção total! Não dava pra acreditar que em tão pouco tempo a gente já tava sendo expulso dali desse jeito… achei meio precipitada a decisão de em vez de esperar um pouco e tentar passar (afinal montanhismo é atividade de risco por esse motivo), mas sei lá, os outros 3 guias e seus grupos desceram então fomos também.

À 1h da manhã já estavámos de volta ao refúgio e fiquei uma meia hora conversando com um grupo de americanos que também estavam no Cotopaxi. Também questionaram a decisão de descer correndo, mas enfim, já estava feito. Fomos dormir de novo e acordamos bem cedo pra descer e voltar pra pousada. A montanha amanheceu lindíssima, com o sol deixando as encostas avermelhadas, e pouquíssimas nuvens. Um pouco antes de sairmos, vimos o sueco-projeto-de-Ueli-Steck descendo com seu guia. Foram a única equipe que chegou ao cume, porque saíram mais cedo e subiram numa velocidade absurda.

 

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ANTISANA (5704 m)

 

A quarta montanha mais alta do Equador (5704m), é também um dos vulcões mais técnicos da Cordilheira dos Andes. A graduação alpina é apenas 1 grau acima das outras, mas a diferença é gigantesca. Primeiro que, apesar de a apenas 2h de Quito de carro, ele fica completamente isolado, no meio do nada. Para acampar, escalar ou qualquer outra coisa, é preciso passar por 2 “portarias”, sendo que na segunda é preciso apresentar autorização do Ministério do Meio Ambiente. Como não tinha ninguém quando fomos, abrimos a cancela e passamos. Sorte nossa pois na saída percebemos que a agência não tinha nos dado a autorização correta. A montanha tem uma das geleiras mais ativas do mundo, portanto não há rota permanente e sua superfície é totalmente coberta de seracs e gretas.

Acampamento na base do Antisana, a 4500m.

 

O Antisana era meu principal objetivo. Claro, eu queria passar dos 6 mil, subir as outras, etc, mas estava encantada com tudo que tinha visto desta montanha. Isolamento+nível de dificuldade acima do que estou acostumada=paixão. Obviamente que era um objetivo ambicioso devido á minha inexperiência, mas como sou meio sem noção, fui assim mesmo.

No dia anterior um dos guias com quem fiz amizade me ligou falando que o tempo estava bom e que um grupo da Alpine Ascents tinha feito cume, então era muito provável que tudo daria certo. Quando chegamos o tempo estava aberto, montamos acampamento e fomos cochilar. Nesse tempo choveu bastante, caiu chuva de granizo e muita trovoada. Acordamos com um céu estrelado perto das 18h pra jantar, e quando levantamos mais tarde, às 23h, o céu ainda estava bem limpo. Comemos rapidinho, nos equipamos, e entramos na trilha, de terra fofa e poucas pedras.

A caminhada até o começo da geleira durou uns 40 minutos nos quais eu me senti super bem. Colocamos os crampons, nos encordamos, e já começou uma leve dificuldade: entramos na geleira e ficamos uns bons outros 40 minutos caminhando em gelo. Nadica de neve pra facilitar a nossa vida. E já bem no começo, muitas pequenas gretas pra cruzar (pular né…), uma atrás da outra, correndo paralelas, e se abrindo cada vez maiores conforme subimos. Nesse tempo também o primeiro susto: ouvi uma barulho forte, como um pequeno trovão. Era uma avalanche perto de nós. Medo! Quando finalmente chegamos na neve, deu pra perceber que não estava lá nas melhores condições. Meio fofa demais, o que dificulta a subida, principalmente se levando em conta que a inclinação média aqui era maior que numa montanha como o Cotopaxi.

Nas próximas horas de subida cruzamos inúmeras gretas de todos os tamanhos, tivemos escaladinhas de até 60 graus em paredes com neve não lá muito confiáveis, com direito a front pointing e às vezes até ancoragens pra garantir a segurança. O guia escutou mais uma avalanche. Chegamos num ponto (5323m) onde a rota normal estava bloqueada por um serac caído. Foi um baquezinho, mas eu já sabia que era uma montanha sem rota e que uma das maiores dificuldades, mas também prazeres, é justamente o route finding. Pelo menos estávamos subindo rápido, segundo ele. Ou seja, estávamos com tempo pra nos perdermos um pouco.

Mas passamos mais 1h30 procurando por um jeito de subir, até chegarmos na borda de uma greta gigantesca, que nos separava da crista, logo ali do outro lado. Subi de front pointing numa neve acumulada, que dava pra pegar em montões com a mão. Desta vez, fui eu que ouvi o som de coisas rolando. E bem perto. Era a terceira avalanche rolando perto de nós. Nessa hora descemos da borda, e tivemos uma pequena conversa sobre as condições. Já tínhamos perdido tempo procurando um caminho, as condições não estavam boas, e estariam piores na descida, achando a rota logo ou não. Decidimos descer um pouco e uma vez mais procurar uma rota. O caminho ideal era por baixo de uns seracs, onde o guia imaginou que tivesse rolado a última avalanche. Realmente não era muito animador passar por ali: uma parede de gelo da altura de um prédio de uns 3 andares, com vários blocos menores caídos embaixo. O pouco que consegui iluminar com minha headlamp foi suficiente pra meter medo, e no que foi uma decisão difícil – dessas que você no fundo é contra, mas o pouco que te resta de bom senso vence. Às 4h02, a exatos 5294m, decidimos dar a volta e descer.

Antisana e seus dois cumes: minha primeira montanha técnica, e literalmente, um parque de diversões.

 

A descida foi desses momentos tristes que a gente não esquece tão cedo, difícil de engolir, e uma confusão de sentimentos que não cabe aqui expressar. Talvez na minha ainda curta carreira como montanhista, foi o momento mais difícil que passei até agora. Foi duro, e rendeu muitas lágrimas. Com certeza lembrarei disso por muito tempo.

 

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PONTOS ALTOS E BAIXOS DA VIAJEM: OS GUIAS EQUATORIANOS

 

Saí de lá com a impressão de que ou são incrivelmente bons, ou são o “resto”. Tive o imenso privilégio de ser guiada na primeira parte por um guia IFMGA, com um puta histórico, e super profissional. Um cara com uma bagagem absurda, cheio de história pra contar, e experiência pra compartilhar. O guia assistente e um outro guia da mesma agência e que estava no Cotopaxi também merecem os mesmo elogios. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer dos outros dois guias que tive pro Chimborazo e Antisana. Não dá pra negar o quanto esses caras são mulherengos! Faltar mulher na vida deles com certeza não falta, até porque eram todos ou casados ou com namorada, mas mesmo assim ficam levantando a asa, ao ponto de ser irritante e desconfortável. Não conheço a linha que separa assédio de não assédio, mas beirou o insuportável e me fez repensar a questão de viajar sozinha pra lugares muito remotos. Felizmente eu tinha uma piqueta comigo.

Eu sei e já vi muita turista européia e americana que viaja atrás disso mesmo, mas na boa, eu estava com as 4 mais altas alinhadas pra subir uma atrás da outra. Acho que estava bem óbvio que meu objetivo era escalar montanha e nada mais. Infelizmente a memória mais forte que ficou da viagem é o receio que virou medo, de estar na presença de um deles, de tão “espaçoso” que era. A reclamação que eu fiz surtiu efeito e aparentemente o assunto já foi parar na associação de guias. Acho que cabe apenas dizer que é absurdo um guia de uma atividade de risco se portar como esses caras se portaram, independente da famosa desculpa de isso ser do homem latino, das gringas correrem atrás, do ministério do turismo ensinar que “90% das mulheres que viajam desacompanhadas estarem buscando relações com guias” (sim, eu ouvi um guia falando isso pra outro) ou qualquer outra merda que seja usada como justificativa pra subverter a lógica da relação cliente/guia.

Tecnicamente falando, realmente eles são bem fortes, mas diria que a maioria precisa melhorar no trato com os clientes, principalmente os menos experientes. Talvez eles dêem mais valor a isso quando a obrigatoriedade de subir com guia cair, e o número de clientes diminuir, já que as pessoas voltarão a escalar independente. Mas enquanto essa regra persistir, nós “clientes” acabamos reféns da sorte de ter um guia muito bom, ou o azar de ter um bem mais ou menos. Não citei nome de nenhum aqui, mas precisando, posso recomendar 2, e não recomendar outros 2.

Profissionalmente falando, de novo, os 2 últimos foram problema. Já tinha ouvido falar que às vezes os guias equatorianos são preguiçosos, e isso confere. O guia do Chimborazo não só era grosso e folgado pra cacete, como claramente não queria nem tentar subir a montanha. Foi salvo pelas pedras. O mesmo valeu pro guia do Antisana, que já eu tendo essa experiência com o guia do Chimborazo, cortei com grosseria logo no primeiro xaveco idiota. Daí até o final, trocamos meia dúzia de palavras, ele percebeu minha birra, e pelo menos fez o trabalho dele (ou não). Mesmo assim, estragou minha última semana, e manchou a viagem inteira.

Portanto, na falta de uma boa recomendação de guia (foi meu caso), deixe bem claro que está lá pra escalar, decida junto as rotas e não se deixe levar pela má vontade, e se rolar disso, reclame. Eu mesma já escrevi uma reclamação enorme pra agência dos 2 últimos guias, e publiquei a reclamação em alguns sites também. Mas dada a dica, acho que mais importante de tudo é ir com guia recomendado, e na impossibilidade de isso acontecer, se impor sem medo, mesmo sendo inexperiente.

 

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A CONCLUSÃO

 

Fui pro Equador pra aprender. Fazer todos os cumes seria ótimo, mas não deu. Foi importante aprender que montanhismo não se limita apenas a saber andar com crampons, usar a piqueta, chegar no cume. Entender os tipos de neve, as condições climáticas, a escolha de rotas, os perigos objetivos, os possíveis fracassos – por motivos controláveis e incontroláveis, tudo isso faz parte, deve ser aprendido, compreendido, praticado, e cada vez mais, ainda mais pra gente que como eu que vive no Brasil e não tem um contato constante com esse ambiente totalmente diferente. Nos últimos meses conheci gente que tinha ido a 1, 2 ou 3 montanhas e veio querer me dar aula disso ou daquilo (tô bem de saco cheio dessas pessoas cheias de currículo teórico querendo bancar de experiente…deu pra perceber né), mas a quantidade de coisas novas que se vivencia num pico nevado é tão grande, que a não ser que você esteja com frequencia num lugar assim, dificilmente vai dominar qualquer disciplina dessa atividade. Tem que ir lá e experimentar, e principalmente, tem que escutar seu corpo, pois no fundo, é ele que te autoriza a subir ou não uma montanha. Felizmente o meu tem sido bem legal comigo…

Minha curva de aprendizado nessas semanas foi super íngreme. O que vivenciei nessas semanas quase não cabe na minha capacidade de absorver e digerir tudo, em tão pouco tempo. Foi uma viagem super densa. Felizmente aperfeiçoei meu modo de aclimatação, e ela foi praticamente perfeita. Felizmente me dei super bem com crampons e a piqueta, estava bem familiarizada com nós e procedimentos – e isso agilizou muita coisa. Mas os tipos de neve, andar encordada com pessoas com ritmos completamente diferentes do seu, fazer o front pointing cansando menos as pernas, e lidar com temperaturas malucas realmente foram dificuldades e coisas nas quais preciso me aperfeiçoar.

Mais importante é que meu corpo se adaptou a tudo, e a mente ficou deslumbrada. Em inúmeros momentos eu tinha plena consciência dos riscos de estar ali – seja estar saltando uma greta, estar andando na borda de uma greta com neve ruim, escalando uma paredinha íngreme apenas com 1 piqueta e sem muita firmeza nos pés, enroscando a passada numa descida cansativa, entre outros momentos. Apesar dessa consciência, eu sentia segurança nas minhas atitudes, no meu equipamento, nem sempre nas pessoas que estavam comigo… Era uma sensação plena, até de alívio, de sentir em casa, mesmo com todas as dificuldades e perigos que estão ali. Isso torna todo o percurso importante, tira um pouco do peso de chegar no cume, e torna a experiência muito mais completa. A montanha vira um parque de diversão, literalmente, e por isso me senti uma criança quando estava por lá, principalmente no Antisana.

Voltei frustradíssima, mas reconheço o valor de tudo que aconteceu. Bem disse um dos meus companheiros de viagem, que “abaixo dos 4000m, a bizarra espécie chamada Homo insapiens Alpinistus é sem brilho, apática e quase deprimida.” A vontade é de voltar imediatamente. A montanha, mais uma vez, inspira mudanças.

No entanto termino com uma nota negativa por conta da experiência com os guias ruins, que me chocou bastante. Mesmo a Antisana sendo uma montanha que eu quero muito culminar, não pretendo voltar ao Equador. Não gostaria de reviver os momentos da última semana. Talvez quando cair a obrigatoriedade de guia, eu me disponha a ir com amigos, mas ficou um certo trauma, e pra mim, no momento, não vale nem um pouco a pena.

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Written by Cissa

Fanatic alpinist, rock climber, and wannabe surfer. Sports and travel content writer and graphic designer in the meantime. Self sponsored, based out of a haul bag.

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