OBSERVAÇÕES SOBRE A TRIP AO CAPARAÓ

Meus objetivos para essa trip eram:

  • Fazer sozinha uma trilha de montanha
  • Treinar resistência num perfil altimétrico decente de nível médio-difícil
  • Testar alguns equipamentos novos

 

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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE ASPECTOS TÉCNICOS

 

Preparo físico
Tendo em mente fazer uma viagem desafiadora em 2012, no final de 2011 voltei pra academia. Faço 4x por semana treino de musculação e aeróbico, mais ou menos 1h30. Recentemente entrei na fase de treino de resistência muscular (2 séries de 15 repetições com 85% de carga), e caminhada forte na esteira com inclinação alta (em geral acima de 7, sempre terminando além disso). Sei que tem gente que torce o nariz pra musculação, mas fiquei impressiona em como praticamente não fiquei dolorida, apesar do peso da mochila. Perna não é meu forte, e em geral estaria quebrada depois do primeiro dia, mas muito pelo contrário, estava bem inteira, ou seja, o treino tem funcionado, e felizmente acho que ainda carrego aquele DNA de atleta de resistência. 🙂

Treino pra altitude
Bom, o GPS indicou uma subida acumulada de mais de 8,000m, e não sei se isso bate, acho meio demais, mas fazendo as contas por cima, assim de cabeça, metade disso é certeza que foi. De qualquer maneira, posso dizer que em termos de treino de altitude, essa viagem foi um sucesso. E a maior parte disso foi acumulada em 3 dias, com carga alta – em média 16kg. Será que eu aguento a Serra Fina, heim, heim? Na verdade a Serra Fina será outro treino importante, mas estou bastante satisfeita com esse resultado, que talvez, dos três objetivos acima, tenha sido o mais bem sucedido. Ainda assim, preciso de muito mais treino, com mais subida em cada dia. O ideal ainda é alcançar mais de 1,000m em um único dia, por vários dias seguidos (dá-lhe sobe e desce).

Peso
Definitivamente o que mais pesou foi a comida, e esse foi o maior erro. Saí de SP com a mochila com 17,3kg, e com mais a água, devo ter chegado a 18kg nos primeiros dias. Nos últimos dias o peso da mochila estava mais que tolerável, a ponto de eu não sentir qualquer incômodo. Imagino que tenha terminado a trip com a mochila em torno de 15kg. Sobrou 1 cartucho de gás, muitas barras de cereal e quase toda a uva passa. Portanto, a resolução pra próxima viagem é levar comidas mais leves, já que de resto eu usei praticamente tudo, e por enquanto eu não posso comprar equipamentos mais leves.

Comida: à esquerda o que eu levei, à direita, o que sobrou.
Trilhar sozinha
No geral, foi tudo bem tranquilo. Me surpreendi de prestar atenção na trilha e conseguir identificar caminhos – e não fiquei grudada no GPS, muito pelo contrário. Utilizava ele em momentos que queria confirmar o caminho, e realmente fiz uma consulta mais atenta em 2 momentos. Um foi na subida noturna ao Bandeira, em que saí da trilha (apesar de ter ficado paralela a ela), e outro em que não consegui identificar a volta do Calçado, e fui parar num semi precipício. Em nenhum momento me desesperei: voltava atrás, observava a paisagem, e achava o caminho rapidinho. O único momento tenso, que rolou medo, foi exatamente a descida do Calçado, que é bem íngreme. Depois de um escorregão, decidi tirar a mochila e averiguar o caminho, pra depois subir de novo e descer arrastando ela pela pedra. Aliás foi nesse momento que bateu mais forte a resolução de que seria perigoso fazer o Cristal com aquela mochila. O GPS dá um segurança muito boa, mas não substitui o bom senso e a experiência de saber escolher o caminho certo ou o jeito mais seguro de subir ou descer pela trilha.
 

O que faltou?
Um casaco de frio de verdade, que eu vou ter que providenciar pra trip de agosto, de qualquer jeito. Um par extra de Lorpen.

 

O que sobrou?
Não usei 2 camisetas, sobrou meio salame, quase toda a uva passa, e muitas barras de cereal.

O que eu não levei e não fez falta?
Bastão de caminhada. Sério? Na pedra? Não, obrigada. Mesmo na descida? Sim, é pra isso que eu tenho mãos.

 

Pontos baixos da trip

  • Não ter feito o Pico do Cristal. Pode ter sido medo, excesso de cuidado, sei lá. Não senti firmeza em ir com cargueira.
  • Mutucas insuportáveis.
  • Farofeiros em geral.
  • Caparaó é longe, e eu preciso voltar. Da próxima vez vou tentar ir de avião até Vitória, e de lá pegar os 2 ônibus até Pedra Menina. Por mais que seja mais complicado ir de Vitória até Pedra Menina, do que do outro lado, com certeza perde-se menos tempo (SP > Alto Caparaó = 16h de ônibus).
 

Pontos altos da trip

  • Em termos de equipamento, a meia Lorpen.
  • Sol nascendo no Bandeira – todo mundo com quem eu cruzei e que foi nos dias seguintes pegou tempo fechado. Em pleno Carnaval, apesar da previsão estar boa, tivemos algum pé quente por ali. No fundo o que quero dizer com isso é que acho roubada (pra quem tem experiência) ficar esperando a tal “temporada de montanha” pra se aventurar em altura. Se o tempo tá bom, a previsão é firme, arruma a mochila e vai (acompanhei a previsão do tempo por 3 semanas antes de ir, todo santo dia, 3 sites diferentes, e deu certo).
  • Cachoeiras lindíssimas, ainda mais quando estão vazias.

 

 

Site que deu a previsão do tempo mais precisa
CPTEC/INPE

 

Dados numéricos finais

Quilometragem total 37.77 km

Horas caminhando 19h24

Peso ida 17,3km

Perfil altimétrico do trecho 1 (Portaria-Casa Queimada)

Pra quem interessar, posso disponibilizar meu tracklog dessa trip. No entanto, o que eu usei foi um cedido pelo Tacio Philip, e está bem mais organizado e bem detalhado. Quem quiser, basta pedir no site dele.

Também devo enormes agradecimentos a algumas pessoas que colaboraram em vários aspectos pra que essa trip acontecesse, então um obrigado enorme a vocês.

E fechando o ciclo dessa viagem, acho que deveria ter feito isso antes – mas acredito que as coisas tem hora pra acontecer. Achei essa experiência a minha cara. Se eu fosse uma viagem, seria uma viagem solo, ainda que conhecendo gente pelo caminho. Obviamente que tem trips que jamais poderei ou conseguirei fazer sozinha por questões técnicas, mas sinto que atingi um novo patamar de independência e liberdade, que eu não imaginava sequer existir. E olha que já fiz muita coisa sozinha na vida. Portanto, declaro aberta (a minha) temporada de montanha.
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Written by Cissa

Fanatic alpinist, rock climber, and wannabe surfer. Sports and travel content writer and graphic designer in the meantime. Self sponsored, based out of a haul bag.

2 Comments

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Getulio (gvogetta)

Show de bola a trip feminina solo Cissa! Realmente sozinhos conseguimos aproveitar alguns aspectos do ambiente que jamais perceberíamos se estivéssemos em grupo. Fora o silêncio que já é um dom num ambiente desses.
Parabéns pela coragem e pelo relato. Abraço!

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