HISTÓRIAS DA ÁFRICA

Algumas histórias de viagem interessantes que não tem a ver (ou quase não tem a ver) com montanha.

 

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O CASO CARNIVORE

 

Na ida pro Monte Kenya comentei que gosto de experimentar comidas exóticas dos lugares pra onde vou, e a Fiona ecoou minha vontade. O motora e nosso guia Eddie então sugeriram irmos no tal de Carnivore, onde dava pra comer zebra, crocodilo e tantas outras coisas exóticas, quando descêssemos da montanha. Beleza. Descemos, fomos pro hotel, tomamos um merecido banho, e esperamos chegar nosso táxi pra ir pro restaurante.

Primeiro que tudo na região central de Nairobi fica em “compounds”, ou seja, áreas fechadas e super protegidas. Inclusive nosso hotel, que tinha guarita pra entrar e sair. O restaurante não era lá muito perto, e no caminho vimos mais vários outros compounds. Finalmente passamos um campo gramado enorme, e paramos numa guarita. Os dois guardas mandaram o taxista abrir o porta-malas, e colocaram um espelho debaixo do carro. Eu toda sem noção, achando que todo lugar é Brasil, perguntei pro taxista pra que tudo aquilo. E ele respondeu que com muito turista tinha muito atentado e era preciso tomar cuidado. Bem lembrado, pois alguns meses antes uma bomba explodiu em Mombassa, e algumas semanas depois que voltei, foi outra em Nairobi e mais outra em Mombassa, de novo.

Mas bem, o Carnivore é um dos 50 melhores restaurantes do mundo, considerado o melhor da África, e cafona pra caramba, toda aquela decoração de safári, acento de pelo de zebra etc. Não tem muita carne exótica porque a carne de caça está proibida há muito tempo (ainda bem né…), mas consegui comer avestruz e crocodilo. A Fiona ainda comeu saco de búfalo, mas esse eu não tive coragem. Aparentemente tem gosto de arroz.

 

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O MERCADO DA PERIFERIA DE NAIROBI

 

Paramos na entrada da cidade, num cenário que era puro filme de miséria na África. Mesmo assim, pra entrar no mercado, tinha detector de metal. Estava atrás de café queniano. Não achei, mas valeu a experiência.

 

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O CASO ZÂMBIA

 

Tudo tinha dado certo até o último dia. Me surpreendi de não ter perdido nada, afinal, eu sempre perco alguma coisa. Cheguei no aeroporto de Nairobi cansada, mas preparada psicologicamente pra longa viagem de volta, com escala no Malawi, Zâmbia e na África do Sul, e grandes intervalos entre cada uma. Mas tudo bem, em Johannesburgo eu teria 12 horas e já que pra lá não precisamos de visto, sairía do aeroporto e iria dar um rolê pela cidade. Mais África!

Não foi bem assim. Demorou, mas o momento tenso da viagem chegou. O avião pousou em Lusaka, capital da Zâmbia, de madrugada, num aeroporto minúsculo. Passei pela imigração pra ficar em trânsito internacional, mas qual não foi minha surpresa de saber que não existia área de trânsito no aeroporto! Pior ainda, a mina da imigração não queria que eu pagasse os 50 dólares do visto já que eu não ia ficar lá, bastava ela ficar minhas 6 horas de trânsito com meu passaporte. Não concordei, fui no “saguão” e tirei 50 dólares em kwachas pra pagar o visto. Fui parar na parte restrita do aeroporto atrás da menina da imigração, que junto com mais umas 4, não queria de jeito nenhum devolver meu passaporte. Bati boca, mostrei o dinheiro, mas não adiantou nada. Apreenderam meu passaporte e só iam devolver na hora de embarca. Puta merda.

Fiquei 6 horas deitada no banco gelado do aeroporto, com frio, quase tirando a jaqueta de pluma pra tentar dormir, exausta, mas tão preocupada que cochilei por meia hora e mais nada. Bem, as horas passaram e na hora do check-in lá fui eu de novo perambular livre por áreas restritas do aeroporto, atrás do meu passaporte. E consegui! Ufa! Passei nervoso… mas sobrevivi.

Mais tranquila, despachei minha mala ansiosa pra chegar em Johannesburgo e dar uma volta pela cidade. Sentei no avião e tava tão cansada que dormi e nem percebi quando o avião decolou.

Vôo tranquilo, passei pela imigração e consegui mais um carimbinho no meu passaporte, aí fui retirar minha mala toda feliz, pensando em deixá-la em algum guarda volume. Mas é claro que, como eu sempre perco alguma coisa nas minhas viagens, e eu ainda não tinha perdido nada, a South African fez o favor de perder minha mala por mim. Passei tanto tempo pra fazer a reclamação e acionar o seguro que acabei nem saindo do aeroporto. Olha, terrível a sensação de embarcar sem mala, de chegar em Guarulhos sem mala, de pensar que praticamente tudo que eu tenho de equipo tava lá e eu não poderia mais viajar sem minhas coisas… é meio como estar pelado na hora do desembarque! Felizmente minha mala foi localizada alguns dias depois e chegou intacta. Ele foi “esquecida” adivinha aonde? Na Zâmbia.

Pra completar, nem na África do Sul queriam trocar meus kwachas por dólar. Ou seja, tenho 50 dólares numa moeda que ninguém quer. Já coloquei até no porta retrato pra guardar de lembrança. Zâmbia nunca mais.

 

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OS “KILIMANJARO PLATES”

 

Os restaurantes servem quantidades absurdas de comida. Pra quem pode pagar, claro. Comer em restaurantes padrão não é caro pra nós brasileiros. Mas pensar que estamos no continente onde milhões de pessoas morrem todos os anos por falta de comida te faz olhar pra um prato de pedreiro do tipo que eles servem lá, e por isso tem o apelido de “Kilimanjaro plate”, e perder um pouco a fome, além de pensar muito mesmo. Poderia entrar num discussão bem profunda aqui e comparar essa situação à exploração gringa do turismo em regiões como o Vale Sagrado no Peru e o Atacama no Chile. Não vou entrar em detalhes, mas pra quem já foi e é observador, a situação é a mesma.

 

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OS GUIAS CANTORES

 

Na subida do Kili, por um tempo um grupo ficou pra trás de nós. Mas por muito tempo, escutamos seus guias cantando pra dar gás pra galera, mesmo conforme eles foram ficando pra trás, dava pra escutar, e quando cruzamos com eles no cume, estavam cantando. Naquela altitude, naquele frio, naquele esforço físico. Precisar, não precisa, o que me leva ao último tópico…

 

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OS AFRICANOS

 

O que dizer dos africanos? Devem nascer com um coração maior que o do resto da humanidade, mais evoluídos com certeza! Do taxista, ao recepcionista, aos carregadores, bus boys, garçons, guias, porteiros, esse povo não pára de sorrir. É parar na frente de um deles pra abrirem aquele sorrisão que ilumina o planeta! E sabem sim da condição em que vivem. Sabem que são miseráveis, que seus países não vão sair daquilo, sabem que os europeus que estão lá tem e sempre terão muito e muito mais fácil que eles. E mesmo assim, te esperam sair da barraca de manhã pra te dar bom dia. Te recebem uma semana depois sem te ver como se não te vissem há 1 ano.

Sempre tentei puxar conversa com a equipe, já que minha companheira gringa não falava muito. Um momento me lembro bem de ver os olhos deles brilharem. Estávamos falando de futebol, e chegamos na Copa do Mundo de 2010, e comecei a comentar como achei o futebol africano lindo, e como as seleções africanas tinham a torcida do Brasil apoiando, e como seria lindo ver uma seleção africana campeã do mundo. Discorremos sobre os problemas políticos, culturais e econômicos que atrapalham o desenvolvimento do esporte, falamos de jogadores nossos e deles, e finalmente comentei que acho que o grande celeiro de jogadores, e de futebol bonito no futuro, é a África, dei meus motivos e fiz minhas previsões. Nessa hora os 11 que estavam dentro da barraca refeitório arregalaram os olhos e esboçaram cada um um tímido sorriso… e os olhos brilharam, como seu eu fosse a guru do futuro do futebol mundial. Mas não acho que foi isso… entendi que eles se surpreenderam de, talvez no meio de tantos turistas europeus e estadounidenses que só estão de passagem, perceberem que existe gente sim prestando atenção neles. Do mesmo jeito que rolou um empatia com os guias quando mostrei minhas músicas africanas no celular, nesse momento também ficamos um pouco mais próximos, o que pra mim foi um grande presente, afinal, ser uma pessoa que emana boas energias e alegria não é talento, não se compra com dinheiro, mesmo na situação deles. Estar perto de uma e poder vivenciar essa energia é muito especial. Africanos são os seres humanos no seu estado mais puro.

E portam-se assim naturalmente. Nós aqui no Brasil achando que somos o povo mais alegre do mundo, mas somos cada vez mais americanizados com nosso crescente poder aquisitivo. Se a algumas décadas atrás éramos todos felizes à toa, hoje somos porque temos a TV, o iPhone ou podemos comprar os produtos de luxo igual europeus o fazem. Os africanos não, são mais pé no chão que qualquer outro povo que conheci (mesmo os descendentes de inca, que são muito politizados). Sabem sim como é nosso planetinha podre, e mesmo assim, vivem com uma alegria tão intensa, sozinhos ou em grupo, que fica impossível não se contaminar estando ao lado deles. É uma lição pra todo mundo, saber que no continente mais sofrido de massacrado de todos, estão as pessoas com mais amor no coração do mundo. Saí de lá com essa lição bem aprendida: preciso sorrir ainda mais, amar ainda mais, agradecer ainda mais.

 

Asante sana Africa!

 

P.S.: E essa conversa dá muito pano pra manga sobre como o futebol é realmente um esporte muito foda pra unir os povos… mas isso é papo pra mesa de boteco. 🙂

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Written by Cissa

Fanatic alpinist, rock climber, and wannabe surfer. Sports and travel content writer and graphic designer in the meantime. Self sponsored, based out of a haul bag.

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