AS MONTANHAS DE MONTANHISTAS – PARTE I

O que separa um turista de um verdadeiro alpinista? Talvez não sejam os anos de prática, a altura das montanhas conquistadas (afinal de contas, tamanho não é documento), ou a quantidade de cumes no “currículo” de alguém. A meu ver, o que separa reles mortais de grandes escaladores/alpinistas/montanhistas, é a dificuldade técnica dos objetivos.

 

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Se por um lado hoje praticamente qualquer um com dinheiro consegue culminar um Everest, ainda que essas pessoas tenham muito dinheiro, sem preparo elas não conseguiriam chegar à cumes de montanhas difíceis, com rotas de graduação alpina alta. O mesmo não pode ser dito dos escaladores que andam desbravando as montanhas mais inacessíveis do mundo. Esses escaladores certamente tem capacidade de escalar praticamente qualquer montanha.
A diferença é clara nos objetivos, que vão de mero lazer, à fama atrelada a montanhas conhecidas e as oportunidades que isso traz, profissionais e econômicas. A partir dessa constatação, podemos começar a utilizar um termo bem conhecido no meio, o “mountaineer’s mountains”, ou seja, as montanhas de montanhistas. Aquelas que exigem que, independente do dinheiro, o escalador tenha uma formação completa que lhe permita ser auto-suficiente nas situações mais extremas, pois nada menos do que isso pode possibilitar sua volta com vida de uma tentativa de cume.
Portanto, esqueça por alguns minutos o Everest, o Aconcágua, o Elbrus. As tais “mountaineer’s mountains” são off-limits para os montanhistas ocasionais, e que se limitam às rotas normais e escaladas não técnicas. A mais representativa delas é, sem dúvida, o K2. Apresento a vocês, algumas das mais difíceis, cobiçadas e semi-inescaláveis montanhas e rotas do mundo. Aquelas onde mesmo os super experientes apanham, e falham. E mesmo no fracasso de na maior parte das vezes não chegar ao cume, ainda assim são os grandes montanhistas de nosso tempo, abrindo novas rotas dificílimas em lugares inóspitos onde não há câmeras e nem flashes.
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HUANTSÁN (6369 m) – CORDILLERA BLANCA, PERU

 

Conhecida entre os frequentadores da região como o K2 dos Andes, a Huantsán é uma montanha onde todas suas poucas vias são de graduação alpina alta – até porque a maior parte das ascenções é em vias que se adaptam e variam de outras, muitas vezes ainda não repetidas – exigindo que seus visitantes tenham capacidade técnica muito acima da média, devido às suas paredes íngremes e escarpadas. Deve ser por isso que é a montanha que menos recebe ascenções na Cordilheira Branca. Em 2006 os excelentíssimos Nick Bullock e Matt Helliker abriram a via Death or Glory no pilar noroeste da Huantsán Sur (TD/ED, 1000m), escalando sob seracs gigantescos e estalactites de gelo da grossura de postes.
E aí, vai encarar? Foto: Mat Helliker.


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ULTAR SAR (7388 m) – BATURA MUSTAGH, KARAKORAM, PAQUISTÃO

 

Localizado a poucos quilômetros da estrada pavimentada mais alta do mundo, o Ultar Sar é considerado por muitos como inescalável, e os locais acreditam que isso se dá pois existe uma maldição sobre a montanha e alguma entidade má não permite a escalada… Nos anos 90 a montanha ainda era uma das inescaladas do mundo, e desde então 15 expedições tentaram seu cume, nenhuma com sucesso, mas várias com fatalidades. Em 1996 seu cume finalmente foi conquistado em estilo alpino por 2 japoneses, sendo que um deles morreu ao chegar no acampamento base devido a uma forte infeccção intestinal. No mesmo ano, outros quatro japoneses chegaram ao cume, mas desde então não existem notícias de outras tentativas bem sucedidas. Além da altitude, a montanha é extremamente técnica e exigente, mesmo nas melhores condições climáticas.
Pilar sudoeste do Ultar Sar. Foto: Colin Hailey.
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MOUNT FORAKER (5304 m) – INFINITE SPUR, ALASKA, EUA

 

Certamente o maior desafio de escalada alpina no Alaska, e uma das mais desafiadoras rotas do mundo. A Infinite Spur é uma linha sobre uma aresta de 2700m que se extende da geleira diretamente ao cume da sexta montanha mais alta da América do Norte, por uma parede de rocha, corredores de avalanches e as famosas gretas do Alaska espalhadas por todos os cantos. É uma via tão dura que viu menos de 10 ascenções bem sucedidas nos últimos 30 anos, todas elas por duplas (muitíssimo) competentes. Junta-se à dificuldade técnica, o isolamento e a dureza do clima do Alaska, e temos aí uma receita pra quem realmente gosta de desafios. Infelizmente, foi fazendo essa rota que Sue Nott e Karen McNeill, duas das melhores alpinistas das últimas décadas, desapareceram em 2006, durante tentativa de ser o primeiro time feminino e completar a rota.
Escalada mista típica da região do Alaska. Foto: Joseph Puryear.
A dramática crista próxima ao cume do Mt. Foraker. Foto: Joseph Puryear.
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POMIU (5413 m) – FOUR GIRLS (SIGUNIANG) MOUNTAINS, CHINA

 

Também conhecido como Pico Celestial, o Pomiu é um big wall alpino no sudoeste da China, uma região inóspita mas que vem ganhando atenção turística. A primeira ascensão foi em 1984 por dois membros do American Alpine Club (AAC). A última ascensão conhecida foi por 3 chineses em julho de 2012, depois de mais ou menos 30 enfiadas, em 52 horas, numa via de dificuldade média de grau 6, com todas as características de dificuldade de uma grande parede alpina. A montanha é estreita e com muita queda de pedras, e a descida do cume é particularmente difícil. Veja o video da escalada chinesa abaixo.
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CHACRARAJU Este (6001 m) – JAEGER ROUTE, CORDILLERA BLANCA, PERU

 

Mais uma da Cordillera Blanca, o Chacraraju é uma montanha de poucas rotas, e todas elas dificílimas. Ainda pior que a Jaeger, existe a Direta Francesa, uma ED2 de 1000m, que ascende diretamente embaixo de seracs e cornijas gigantescas. Apesar de mais da metade da via ser considerada relativamente fácil (vejam, o fácil aqui é para um escalador de gelo experiente), as últimas enfiadas são contrastantes em que são extremamente difíceis e foram até hoje bloquearam a maior parte dos que tentaram de chegar ao cume. Essa via é feita algumas vezes por ano por alpinistas bem competentes, e já foi feita em solo por um francês de 24 anos.
A parte mais alta da Jaeger route, em julho deste ano. Foto: SPer Vitality M.
Inclinadinho né? Foto: SPer Vitality M.
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YERUPAJA (6635 m) – CORDILLERA HUAYHUASH, PERU

 

Uma das minhas favoritas é a segunda mais alta do Peru: a belíssima Yerupaja fica próxima à mais conhecida e não menos difícil Siula Grande, aquela do filme Tocando o Vazio. Até 1950, era o cume virgem mais alto fora do Himalaia. 16 anos depois, 2 grupos fizeram sua segunda e terceira ascenção, sendo que neste terceiro grupo estava nada menos que Messner. Assim como outras montanhas da região, o cume é estreito e as encostas são muito flauteadas, o que aumenta os perigos objetivos. Em 2004 o brasileiro Niclevicz tentou cume, mas abortou devido a condições desfavoráveis. Sua última ascensão conhecida foi por um time misto em 2009. Também conhecida como Carniceiro, o Yerupaja já matou e acidentou diversos que tentaram superar suas paredes de rocha e gelo que podem chegar a até 2000m de altura, tanto que pouquíssimas pessoas já estiveram em seu cume (o número atual gira em torno de 30 e poucos).
A via Limitless Madness (VI, WI6, 5c, 1900m), face noroeste. Créditos/escaladores:
Matevz Kramer, Matej Mejovsek e Tadej Zorman, Eslovênia.
Brincadeira de gente grande. Foto: idem.
P.S.: Que fique bem claro aqui, que eu defendo que cada um suba do jeito que achar melhor, e nem de longe sou desses puristas que são absolutamente contra oxigênio e contra todo tipo de expedição. Mas acho inegável que existe um abismo entre um montanhista que só escala nas férias (tipo eu) e esses ilustres loucos desconhecidos, perrengueiros elevados à décima potência.
 
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Written by Cissa

Fanatic alpinist, rock climber, and wannabe surfer. Sports and travel content writer and graphic designer in the meantime. Self sponsored, based out of a haul bag.

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