APRENDIZADOS DE MONTANHA – CORDILHEIRA BRANCA 2013

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TREINAMENTO

 

Vamos combinar: treinar é um saco, e minha cota de atleta nessa vida já expirou faz tempo. Comecei a treinar em março, e já no final de junho não aguentava mais correr, principalmente quando não conseguia correr na rua e tinha que correr na esteira. O Facebook cheio de foto do povo aproveitando a neve e eu lá chupando dedo, trabalhando feito um camelo, o emocional ruim por causa de tudo, fazendo mudança de apê, e no final das contas a resistência caindo e eu passando 2 semanas zoadassa. Julho, sempre julho…

Mas valeu a pena? Lógico! Mais do que nunca! Fora que é muito bom receber elogio de quem é muito bom, fazer as aproximações com mais rapidez… a escalada fica toda mais divertida, pois voce tem uma variável a menos pra se preocupar, e no final das contas, mais rapidez = mais segurança. Além do que, um preparo físico bom te permite ir além do “normal”, e esse tipo de desempenho inspira mais segurança em si mesmo e em nossos parceiros, e nos abre mais possibilidades de escalada, pois passamos a ter a capacidade aeróbica e técnica de lidar com rotas mais difíceis e interessantes. Ou seja, algumas rotas deixam de ser off limits e passam a ser tangíveis, i.e., sair das “normais” e começar a freqüentar as “diretas”.

O único porém é que, no Artesonraju, senti um pouco de cansaço, com os 65-70 graus constantes desde o começo da geleira, e cheguei à conclusão de que, para rotas de graduação D e acima, talvez seja necessário ainda mais treino, pra ir com a mesma tranqüilidade das outras montanhas. E o treino tem que ser constante, ou seja, não dá mais pra treinar alguns meses antes da viagem, o treino tem que durar o ano inteiro. Fato. De qualquer maneira, já vi que dá resultado, então a motivação vai estar lá.

Em termos técnicos, tive facilidade de lidar com a escalada em neve e gelo, as quais não considero complicadas. De novo o desafio realmente foi no Artesonraju pela constância da inclinação. Mesmo o Huamashraju ser quase todo gelo duro e tendo a mesma graduação, no geral foi um pouco mais fácil, talvez por ser mais curto. Os procedimentos também foram tranqüilos graças às paredes que tenho feito no Brasil, e foi mais questão de se adaptar à diferenças de estilo. Felizmente ainda não foi dessa vez que desisti de um cume por falta de capacidade física (e que nunca aconteça!)

Se posso dar um conselho pra quem vai escalar montanhas de mais responsa (não esquecendo que a genética também conta), é que treine, e MUITO. Esqueça balada, namorado(a)/marido(a), televisão, festa e afins. Dá pra ter (um pouco de) equilíbrio sim com vida social (principalmente se a sua vida social for a escalada), mas pra subir uma montanha difícil, é preciso sim ter condicionamento de atleta, e isso não se consegue em 3 meses de treino. Mas garanto, o resultado vale MUITO a pena.

 

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ACLIMATAÇÃO

 

Pela primeira vez desenhei sozinha meu processo de aclimatação. Correu tudo bem, felizmente, mesmo tendo tomado pouca água (no Equador tomava 6l por dia, pois era fácil de conseguir nos refúgios, no Peru às vezes tomava menos que 3l por dia porque tínhamos que ferver e derreter neve, o que é bastante trabalhoso e enche o saco).

 

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OS PERUANOS

 

No começo do ano atestei que os guias equatorianos são fortes. Ou descarto essa afirmativa, ou invento uma nova palavra para os peruanos. Guias, aspirantes, e carregadores. O apelido do Victor Hugo talvez descreva bem, são Monstros. Sobem correndo e de pé rampas íngremes, não ofegam, não descansam, não comem, não tomam água. Ainda que nas descidas eu acompanhasse o ritmo, nas subidas era mais penoso, e parecia que eles estavam passeando no parque. Além disso, são extremamente técnicos. Montam e desmontam paradas com uma velocidade e organização incríveis. Em inúmeros momentos me perguntei o porquê de não haver peruanos no Himalaia, de tão fortes que são. Certamente deixariam no chinelo muito europeu. Ficam devendo apenas em falar um inglês um pouco melhor para expandirem a clientela.

Elogios à parte, eles sofrem de “bricherismo”, aquela doença também conhecida como “caçadores de gringas”. Não dá pra inocentar as estrangeiras até porque, até onde entendi principalmente as nórdicas acham os descendentes de inca super exóticos, e tem gringa sim que vai lá pra vocês sabem o que. Mas pra quem não está a fim de lidar com esse tipo de incômodo, e está lá pra escalar (que era o meu caso), a melhor maneira é ter uma conversa franca logo no começo, deixando muito claro suas intenções. Comigo funcionou, e fui respeitada e levada a sério por todos os peruanos em todos os momentos. Felizmente no Peru a situação do Equador não se repetiu, e pra falar bem a verdade, às vezes eu sentia como se fosse homem, pelo tratamento que recebia. O que pra mim estava ótimo: nada melhor do que escalar com o status de one of the boys (acho que o fato de eu estar bem forte também colaborou pra isso).

 

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OBJETIVOS

 

Alguns dos meus objetivos nesta viagem incluíam terminar alguma rota de graduação D e chegar a 6000m, mas o mais importante de todos, era aprender a ser uma escaladora independente em alta montanha (ênfase em “escalada”). Não cheguei a 6000m, e acabei nem bodeando por causa disso, mas no geral, acho que fui além do que eu queria pra esses 30 dias. Primeiro porque o Arteson foi uma montanha de outro nível. Segundo que além de ter entrado em 2 rotas D, terminei uma delas, e ainda escalei em gelo azul e fiz dry-tooling (que nem estava nos planos). O mais importante, é que saí de lá confiante de que, na próxima, não precisarei mais de guia-parceiro, e sim de um bom parceiro (alguém aí se habilita?). Antes de decidir por Hatun Machay pros últimos dias, o próprio Beto disse que eu devia fazer Pisco ou Valluna sozinha (fica pra 2014), mesmo ainda sendo meio perdida em geleiras.

 

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A COMUNIDADE DE ESCALADA

 

A Cordilheira Branca e região é um local que atrai alguns dos melhores escaladores técnicos do mundo. Em termos de escalada técnica em altitude, talvez apenas o Karakorum supere as qualidades e condições da Blanca. Alguns dos maiores nomes do alpinismo mundial de ontem e hoje já passaram e até ficaram por lá: Bonatti, Bonali, Messner, Carlos Soria, Silvia Vidal, Steve House (estava por lá, mas foi embora mais cedo por causa das condições ruins) e dezenas de outros famosos e anônimos, todos buscando rotas técnicas, faces virgens e projetos desafiadores.

Do mesmo jeito que é possível conhecer a única dupla que fez a Jaeger no Chacraraju nessa temporada e bater um papo informal com eles, voce também conhece gente que está só de passagem e vai subir o Vallunaraju com luvas de lã, pois é a primeira vez que faz alta montanha. E o que voce divide com esses últimos, a dupla do Chacraraju divide com voce de experiência deles. As trocas são riquíssimas em todos os níveis. Aprendi muita coisa simplesmente conversando com os outros. Todo mundo quer saber onde você foi, como estavam as condições, como foi a escalada, e que bom que você voltou com segurança, e vice e versa. Não interessa se você abriu uma rota nova no Huantsán ou se você foi pela normal do Pisco. Ninguém é melhor que ninguém, apenas tem mais ou menos experiência, a qual eles sempre dividem com você com o maior prazer. Mesmo a galera da esportiva e boulder, em Hatun Machay, não estava preocupada em dividir um setor com alguém que escala 6a fr enquanto eles escalam 8c fr: eles querem que voce se divirta, do mesmo jeito que eles querem se divertir (o Edu queria que eu entrasse num 7c+ que ele estava mandando e quando eu disse que pra mim era forte demais se ofereceu pra montar um top “só pra eu brincar” – vai ver se isso acontece em certos lugares…). O que importa é o sentimento de satisfação do grupo, de estar num lugar tão especial, fazendo o que mais gosta. Conheci muito escalador muito forte por lá, e a simplicidade das pessoas é impressionante. A sensação que tive foi sempre de ter sido “adotada” pelos mais experientes.

Não sei qual ingrediente faz Huaraz ser desse jeito. Mas é fantástico voltar da montanha, descer pra jantar na cidade e encontrar gente que você conheceu na semana anterior e se sentir como se estivesse encontrando amigos de infância. Em Huaraz esse fenômeno acontece quase 100% do tempo. Talvez seja um dos motivos pelo qual não queremos sair: amigos do mundo inteiro, boa comida e bebida, e excelentes montanhas e rochas bem ali do lado. Precisa de mais pra ser feliz?

 

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QUE QUE EU ESTOU FAZENDO AQUI?

 

Eu disse e comigo concordaram por lá: não dá pra um brasileiro ser um bom escalador (técnico, de altitude) morando no Brasil. Por isso, me considero uma eterna iniciante, e pra mim tudo é oportunidade de aprender. Eu enchia o saco dos peruanos guias que eu conhecia por lá, de literalmente atormentar e inundar de pergunta, principalmente quando descobria que tinham já subido/tentado as montanhas mais difíceis da região, como o Chacra, ou a parede do Huascaran, Huantsan, ou qualquer coisa da Huayhuash.

A pouco mais de um ano atrás eu não me imaginaria escalando picos técnicos. Em janeiro no Equador, nem cogitava algum dia subir alguma via que exigisse 2 piquetas. Um ano e meio atrás, e eu nem achava que algum dia aprenderia qualquer nó de escalada. Fato é que não escolhemos os caminhos pelos quais a vida vai nos levando, e lá estava eu há pouco mais de um mês.

Quando desci do Cotopaxi, guardei comigo a sensação de que apesar de interessante, tinha sido um pouco sem graça, sem emoção. No Antisana, tive contato com pequenas paredes de neve, e isso acendeu uma vontade de experimentar as montanhas técnicas. Mesmo assim, cheguei no Peru preocupada que talvez estivesse indo longe demais. Felizmente fluiu.

Primeiro que se criou uma divisão nova no meu entendimento de montanha – as técnicas, e as walk up (de caminhada). Segundo, eu adorei o estilo de escalada da região. Times pequenos (na verdade duplas), ascensões e aproximações rápidas e com pouco peso, vias onde realmente escalamos, e em muitas ainda tem partes de rocha, problemas bastante interessantes de route finding, além de, apesar do acesso relativamente fácil, muitas das montanhas serem inóspitas e com clima às vezes desafiador. Como último fator que me atraiu bastante, é uma cordilheira no geral técnica, e isso reflete em seus freqüentadores, ou seja, poucas montanhas lá são “turísticas” (i.e. Cotopaxi, Kili, normal do Aconcágua, normal do Huayna Potosi, etc), o que torna as companhias mais interessantes, tem menos gente, e quem está lá já tem uma experiência boa pra compartilhar. Enfim, é um nicho bem interessante, e que pretendo explorar mais a fundo.

 

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MELHORES MOMENTOS

 

  • Yanapaccha: a estadia inteira foi bem aproveitada, mas subir os 200 metros de parede íngreme foi divertidíssimo, e um ótimo aperitivo.
  • No trekking de Santa Cruz, a passagem por Punta Unión e chegada ao vale foi inesquecível. Fazia tempo que meu queixo não caía desse jeito com uma paisagem tão impressionante.
  • Arteson: apesar da frustração de não poder terminar a rota, me diverti escalando 20 metros de parede a 80 graus, em simultâneo e sem proteção (só percebi isso quando saí da parede e vi o Beto lá longe). Além disso, minha surpresa quando entramos na geleira e de cara já tinha 65 de inclinação e eu soltei um “que porra é essa!” O Beto não entendeu nada. Nem eu!
  • Huamashraju: a escalada em gelo duro não foi moleza, mas o mais divertido com certeza foi experimentar o tal de dry-tooling.
  • Em Hatun Machay, o passeio noturno pelo “bosque”, assistindo a noite chegar em cima de um boulder enorme e tomando vinho, e depois um pouco de night climb, tudo ao som de Manu Chao.
  • Em Huaraz, a vida noturna!
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O VENTO

 

No meu relato conto que um dos motivos que nos fez desistir no Arteson foi o vento forte. Não sei medir ou dizer qual a velocidade que o vento estava, só sei que a 5500m, numa rampa de 60-70 graus, o vento me empurrou 2 vezes , e mal dava pra ficar de pé. Foi tenso, e deu medo. Não é aquele medo de estar numa parte exposta, é medo de estar fazendo merda como um todo.

Terminado o trekking de Santa Cruz e a tentativa ao Arteson, o Beto me disse uma coisa que eu só fui entender quando voltei pro Brasil-sil-sil. Depois de pensar bastante sobre as suspeitas que eu tive nos dias seguintes, chego perto de dizer que quase fizemos besteira. O tesão de escalar aquela parede estava tão grande que tomamos algumas decisões que beiraram a burrice, e felizmente nada ruim resultou disso. O que tivemos de bom senso no Toclla não tivemos de bom senso aqui. Eu sei que com o vento que pegamos, certamente muita gente sequer teria entrado na geleira. Talvez essa já tenha sido uma decisão errada.

Obviamente que por estar aqui vivinha, escrevendo sobre isso, achei uma experiência válida, e percebo que nessa escalada ou subi meu nível de tolerância à risco, ou perdi um pouco a noção de perigo. Por outro lado, não fosse o “ploc” na parede da greta ao nosso lado, enquanto estávamos na caverninha de gelo, a gente teria feito merda. Hoje reconheço isso, pois sei que se fosse escolha só minha, eu teria continuado a subida. E teria sido uma burrice. Não sei se isso é um processo que acontece com escaladores em desenvolvimento, afinal de contas é preciso trabalhar essa tolerância pra conseguir escalar montanhas mais complicadas, mas enfim, é algo a ser discutido com pessoas mais experientes. Valeu muito como experiência, e sequer chego perto de chamar de fracasso pois mesmo sem cume, pra mim foi um sucesso, afinal de contas, não dá pra pra aprender a se virar em perrengues na montanha se a única coisa que voce já experimentou foram condições boas.

 

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NOTA FINAL – A SERIEDADE DA CORDILHEIRA BRANCA

 

Brincadeiras à parte, agora vamos falar sério. Montanhismo no Brasil está na moda e tem muita gente que não vê a atividade com a seriedade que deveria. Dois locais da Cordilheira dos Andes competem em números de morte nas temporadas: a Cordilheira Branca (em 2013 foram 8 mortes), e o Aconcágua (na temporada 2012-2013 foram 6 ou 7). Cito uma frase que ouvi por lá: “na primeira, as mortes são pelas condições e rotas perigosas, na segunda, as mortes são por burrice.”

Polêmicas à parte, em minha estadia em Huaraz, conheci muitos guias peruanos, equatorianos e alguns gringos, além de escaladores muito fortes do mundo inteiro. Alguns eu já conhecia de ter lido sobre seus feitos nas minhas pesquisas, ou então por terem participado de resgates em acidentes nesta e em outras temporadas. O guia da MM que estava na Yanapaccha no mesmo dia que nós participou do resgate do Tyler Anderson, na mesma montanha em que estávamos escalando, 3 anos antes. Outro em um momento do nada se abriu e contou como sentia falta de seu amigo Maza, que morreu este ano no Huantsán. Outro era sobrinho de um dos guias que morreu no começo da temporada no Alpamayo. E por aí vão as inúmeras histórias e conexões com profissionais que lidam com o perigo quase diariamente, e tem plena noção disso. Essas mortes deixam de ser notícias e passam a ser fatos palpáveis de gente que voce conhece, e é difícil não se sensibilizar.

Pela primeira vez por exemplo, voltei da montanha com medo real (senão pânico) de avalanche, e com muito mais cautela em relação à gretas, pois realmente me expus a situações onde essas coisas poderiam acontecer, em condições que tornariam mais difíceis as ações pra contornar as situações (cordada de 2). Essas condições e situações fazem parte do estilo de escalada da Cordilheira Branca, por isso a seriedade de estar preparado pra escalar lá.

O problema é quando os clientes/escaladores não tem essa noção, por isso é importante o respeito pela experiência dos mais experientes, e mais ainda o respeito pela montanha, por mais romântico que isso possa soar. Ela nos dá sinais de que é preciso descer, ou que não devemos nem começar a subir (né?), mas é parte da nossa responsabilidade dominar procedimentos e estar preparados tecnicamente, sem extrapolar limites da nossa capacidade. Capacidade essa que deve ser prática, e não se adquire apenas lendo livros e sites sobre o assunto.

Senti na pele a diferença entre tentar uma walk up mountain e tentar uma montanha técnica, e não é brincadeira. Com ou sem guia, é preciso ter condicionamento excelente, é preciso saber procedimentos, é preciso entender as condições climáticas e da neve, enfim, é preciso saber escalar, e se der merda, é preciso saber se virar sozinho (ter um bom parceiro também ajuda bastante).

Foi com certeza a viagem em que mais aprendi. Ainda preciso trabalhar bastante a minha orientação na neve (route finding), mas já me sinto capaz de, junto com alguém que seja bom de orientação, domar sozinhos uma montanha.

Acho muito difícil encontrar esse tipo de detalhe pela internet, pelo menos nos sites brasileiros, por isso divido esses aprendizados com os leitores e espero que sejam úteis de alguma maneira.

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Written by Cissa

Fanatic alpinist, rock climber, and wannabe surfer. Sports and travel content writer and graphic designer in the meantime. Self sponsored, based out of a haul bag.

2 Comments

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Rafael Medeiros

Parabéns pela força de vontade e luta constante que é a realização dos sonhos. Gostei muito do relato, e sou um mega iniciante em trekking, não tenho corpo para escaladas! Mas sonho em um dia poder escalar montanhas como essas que vc fez. Abraços e obrigado pelo relato, me refez repensar algumas atitudes.

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Cissa

Obrigada pelo comentário Rafael. Já fui mega inciante em trekking como voce se descreveu, e estar onde estou hoje foi questão de evolução, trabalho duro e força de vontade. É a paixão por montanha que me trouxe até aqui e com certeza te fará trilhar um caminho incrível.

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