A SIMPLICIDADE DO MOVIMENTO

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Sol nascendo na África. Monte Kenya. Agosto 2012.

Sentado em uma cadeira de escritório, numa empresa, numa agência, numa oficina, tudo que é o oposto parece sonho. “A grama do vizinho é sempre mais verde”. Com as mídias sociais parece que todo mundo menos nosso círculo imediato está vivendo uma vida perfeita. Então queremos também. Também merecemos, também vamos largar tudo e sair pelo mundo.

 

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Mas custa dinheiro. Então tem que trabalhar mais um pouco. Mas tem que escalar melhor e estar mais bonito pras fotos que vai colocar no Instagram, então tem que treinar mais e emagrecer mais, e se der estar sempre bronzeado. Mas não dá pra ser agora. E o que fazer com o carro? E o apartamento, vai fazer como? Deixa tudo na casa da mãe? É muito difícil largar tudo! Como fazer sem a cervejinha semanal com os amigos? A academia? Ter que ficar 2, 3 dias sem tomar banho? Será que vão me chamar de hippie? Assim não vou arranjar marido!

Passa de fase. Milhões de frases de auto ajuda pelo Facebook. “Um homem tem que viajar”. “Ninguém nasceu pra viver e morrer no mesmo lugar”. A viagem tá rolando. Mas o ônibus da Bolívia é muito sujo. A tentação do restaurante famoso da Europa ainda é grande. Tem muito presente pra comprar. “Sou mochileiro”. Foi-se um mês, hora de voltar pra realidade. De volta ao emprego, sensação de férias que podiam ser mais largas. Deve estar todo mundo morrendo de inveja. Mas isso não foi ainda o largar tudo que estava precisando.

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Mar de nuvens e vulcões vistos do cume do Cotopaxi. Janeiro de 2013.

Sai outra vez. Dessa vez pede demissão. Guarda o carro na casa do amigo, a tralha na casa dos pais. Dessa vez menos roupa, uma mochila mais leve, não precisa comprar tanto presente. Um hostel bem mais simples, aquele ônibus empoeirado fica mais tolerável, a comida do mercado popular vira rotina. Foram-se seis meses, hora de voltar. “Sou viajante”. O pessoal do escritório deve achar que estou ficando louco. Procura emprego, começa a vida antiga outra vez. Na verdade, ela nunca acabou.

Mas ela cansou. Não precisa morar sozinho. Não precisa de carro. Não precisa de balada. Não precisa de restaurante, de bar, de armário cheio de roupa que não usa. Não precisa de status, de seguir roteiro, de criar projeto pra todo mundo saber o que voce está escalando. Não precisa dar satisfação. Não precisa fazer a dieta da moda, cortar o cabelo a cada três meses. Chega.

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Descendo do cume do Yanapaccha, Cordillera Blanca, Peru. Setembro 2013.

Chegou a próxima fase. Se livra de tudo. Sai pra viajar, sem data pra voltar. Não tem roteiro. Vai chegando, vai ficando. Cansou, vai embora. Acampa no quintal de um aimará, pega carona de 15 minutos pra conhecer gente, faz trilha curta no meio da noite só pra poder ver chegar o próximo dia. Vai deixando coisas pelo caminho. Vai ganhando amigos pelo caminho. Vive amores intensos de dias ou semanas contadas. Não lembra que dia do mês é, a terça parece sábado, não existe compromisso, não tem conta pra pagar. “Sou nômade”. A família diz que você está acabando com sua vida, que você não pensa no futuro. A vida virou movimento.

Vai vivendo de sol em sol, esquece o nome de usuário do Facebook, esquece a senha do cartão, o número de CPF. “É a idade”, mas não, é a vida. Tem coisa mais importante pra pensar, o resto a gente anota pra quando precisar. Quantos anos tenho mesmo? Não tem endereço. Não se come três vezes por dia, o alimento é qualquer coisa que saia da terra. Não se controla a hora, não se usa despertador. As três camisetas da bagagem são demais, acho que dá sim pra viver só com duas. As memórias das fases vou guardando na pele. Os souvenirs de viagem são as inúmeras pulseiras compradas em cada lugar e que viajam no corpo sem pagar excesso. Papel importante só o passaporte, e o origami feito por uma amiga, um cartão de colagem feito pela outra, um patuá que foi trocado por uma lembrancinha do Nepal. Aquele piton de mentirinha que virou chaveiro, presente daquele cara com quem voce passaria a vida inteira mas só até o próximo destino. Tudo pesa pouco.

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Alvorada no Himalaia durante ataque ao cume do Ama Dablam. Outubro 2014.

Arrasto 100kg pelo mundo, meus cada vez menos 60kg de corpo e meus 30kg e poucos de material de escalada e o resto de necessidades básicas e tecnológicas. Um laptop pesa bem menos que uma máquina de escrever. A roupa que já não tem mais conserto fica pra trás, e vez ou outra entra um camalot novo, um mosquetão achado. Quando preciso compartilho, do meu e dos outros. E qual a história daquela calça toda furada e remendada que não largo faz quatro anos? Vou tão leve que não deixo pegadas. Carrego toneladas de expectativas: onde estarão todas aquelas pessoas que conheci? Em que parte do mundo? Quando nos vemos outra vez (viva o Facebook nessas horas)? Quais lugares e pessoas ainda vou conhecer? Ânsia pelas coisas que ainda não vivi, os amigos que ainda não conheci, as montanhas que ainda não escalei, os namorados temporários de quem ainda não me despedi.

Dos meus amigos e família que estão do lado padrão da sociedade, não quero saber se compraram apartamento, se casaram, se conseguiram aquele emprego. Quero que estejam felizes. Não felicidade do meu jeito, felicidade do jeito deles mesmo.

Meu futuro não é mais tão elástico. Ele acaba na semana que vem, daqui uns dois meses, às vezes amanhã. Eu não controlo ele mesmo… eu me adapto. Não quero classificação, não sou isso nem aquilo, já nem lembro o que as pessoas do escritório me diziam no começo, não conheço mais as expectativas da sociedade de lá, porque as pessoas com quem convivo são essas que não estão na no mundo urbano e virtual. A vida que finalmente levo não é mais essa que planejamos na faculdade. Não tenho obrigação nenhuma de seguir fase, de me encaixar em estereótipo, não sou inspiração, não sou perdida. Estou aqui neste lado escondido, onde a moeda de troca é um sorriso, um bom dia, um contato do outro lado do continente pra parceria de escalada, um “nos vemos pelo mundo”. Aqui finalmente largamos tudo que estava do lado de lá. Ainda assim, vida cheia de imperfeições.

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Por do sol nas Jorasses, aresta de Rochefort e Dent du Geant, Alpes Franceses. Junho 2015.

Não é preciso romantizar ou ficar citando frase bonita. A realidade é um dia atrás do outro, igual pra todo mundo, do lado de cá e do lado de lá. A única certeza é que depois de hoje vem outro lugar e outras pessoas pra conhecer amanhã. O planeta só precisa de energia pra mover-se, e manter-se em movimento. Seguimos o fluxo. Peso extra só torna o movimento mais arrastado. É preciso cada vez menos pra viver, e cada vez mais espaço interior pra conhecer tanta gente e tantos lugares, comemorar tantos cumes e tantas vias. Cabe tanto dentro da gente! E quanto mais nos movemos, mais temos fome de viver.

 

Vida=movimento=vida ad infinitum.

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Written by Cissa

Fanatic alpinist, rock climber, and wannabe surfer. Sports and travel content writer and graphic designer in the meantime. Self sponsored, based out of a haul bag.