A CONQUISTA DA SERRA FINA EM 3 DIAS E 3 NOITES – PARTE 3, O FIM

Difícil se concentrar depois de uma trilha como essa. Da estrada, fiquei um tempo babando pela janela enquanto a Mantiqueira ficava pra trás. Lembrava da visão inesquecível de cima da Pedra da Mina, com Marins e Itaguaré num canto, Itatiaia no outro, e tantas serras e picos mais pra lá e mais pra cá. Fica fácil e até prazeroso desmontar a mochila depois de uma trip como essa. Mas fica difícil se concentrar pra fazer qualquer outra coisa nos dias seguintes. A sensação de conquista é grande demais pra passar em algumas horas.

 

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Já comentei com algumas pessoas que minha primeira (paixão) montanha foi o Roraima. O Roraima é e continua sendo, de longe, o maior perrengue da minha vida. Mas agora tenho um segundo lugar, bem menos sofrido, mas não menos desafiador, e tão memorável quanto. Acho que ninguém que terminou a travessia neste feriado só “terminou” a travessia. No Pico dos Três Estados, onde a maior parte dos grupos que terminou se encontraram, percebemos que ali só tinha casca grossa. E todos, mesmo os que já tinham feito a travessia, passaram pelo mesmo mal tempo. A Serra Fina nos deu passagem, e conquistamos o direito de atravessar, essa é a verdade. Infelizmente não fiz minhas anotações de costume, não gravei o tracklog dia-a-dia, e não peguei contato de ninguém. Mal tive tempo de sentar e curtir qualquer coisa, mas isso fica pra outra vez (aliás, se alguém que estava lá ler este relato, por favor, entre em contato! Mande e-mail! Adicione no Face!).

Acho que terminar essa travessia nesse feriado foi um desafio da montanha: entrar por sua conta e risco, mas ser premiado no final por ter se proposto a sofrer sem esperar nada em troca. Definitivamente, pra mim esse feriado é um troféu pessoal, dos mais especiais, que vou guardar com muito carinho do mesmo modo que tenho guardado minha primeira e mais especial montanha.

Serra Fina, dito e feito!
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Condicionamento Físico
Sim, Serra Fina é sofrida. É cansativa. Mas não é essa loucura de dificuldade que todo mundo fala. Acho que se feita em 4 dias completos, sem necessariamente dormir nos picos principais (pra distribuir melhor a quilometragem) ela é bem tolerável em termos físicos. Obviamente, não pra sedentários, nem pra iniciantes.
Água
Água é problema no último dia. Não adianta dizer que tem no fim da trilha porque é tão no fim que não serve pra mais nada. No Ruah tem muita água, e é lá que se deve abastecer bem os cantis pra 2 dias. Antes, basta controlar direito. Subimos com 10 litros a partir da Toca do Lobo, e sobrou.
Orientação
A trilha é bem marcada, mesmo nos capinzais. Com noções básicas de orientação, dá pra se virar bem. Acho que é uma trilha que rola fazer sozinha, tendo os devidos cuidados. Diferente de Marins-Itaguaré, tem bem menos trepa pedra e encosta exposta pra escalaminhar. Tudo isso, claro, com tempo bom. Se tiver nevoeiro em área de capinzal e for necessário usar somente o visual como referência, a coisa complica.
Peso
Consegui ir bem “leve”, no entanto, na correria que foi a saída, acabei levando apenas 1 par de meias e sofri por causa disso. A sorte é que levei um par de luva grosso que fez as vezes de meia. Sobrou comida, mas me alimentei mal porque no geral, foi bem puxado. Dois dias de 9 h de caminhada seguidos de um dia mais curto, com tempo ruim no começo e roupa molhada a trilha inteira não são superáveis com macarrão instantâneo, barrinha de cereal e Liofoods. Ninguém chegou seco no Três Estados.
Mulherada?
Só vi mais uma mulher fazendo a travessia. Estava com o grupo da criança, que perdemos de vista depois do Ruah. Não sei se terminaram a travessia ou não. Mulherada, pelamor, cadê? Não preciso nem comentar né?
Site que deu a previsão do tempo mais precisa
Não dá pra dizer que algum site acertou a previsão do tempo, até porque em 4 dias pode variar muito, e foi exatamente isso que aconteceu. Climatempo e CPTEC que são os que eu sempre consulto foram boas referências, mas em termos de Mantiqueira, é um pouco imprevisível.
Dados numéricos finais
Km total 31.58km
Tempo total de trilha 27h53
Peso ida 19-20 kg estimados, com 6L de água (como a mochila é nova e muito confortável, ainda não peguei a manha de estimar o peso, como conseguia com a antiga)

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Written by Cissa

Fanatic alpinist, rock climber, and wannabe surfer. Sports and travel content writer and graphic designer in the meantime. Self sponsored, based out of a haul bag.

1 Comment

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Sandro

Um belo relato Cissa.
Bem informativo, conciso, divertido, gostoso de ler.
Parabéns, está cada vez melhor!
E parabéns também pela garra e determinação de guerreira.

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