A CONQUISTA DA SERRA FINA EM 3 DIAS E 3 NOITES – PARTE 2, O MEIO

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DIA 1

ACAMPAMENTO CRUZEIRO AO ACAMPAMENTO DOS QUASE PERDIDOS

 

Acordamos com metade do céu aberto, garoa fina e uns 10 graus. Deu ânimo pra botar a roupa molhada e desmontar o acampamento, mas em pouco tempo a chuva engrossou e o vento começou a ficar mais forte. Na teimosia, decidimos tocar em frente. Saímos às 8h30, e em pouco tempo o tempo abriu e começamos a andar nas cristas e visualizar um pouco do que tínhamos à frente – energia a mais pra aguentar o perrengue. Mas não durou muito. O tempo fechou novamente, a chuva voltou, e o vento ficou ainda mais forte. Subimos e descemos as cristas, às vezes protegidos no meio da mata. A primeira parada foi no acampamento Maracanã, mas durou 5 minutos por conta da chuva que novamente apertou. Na subida do Capim Amarelo (2.491m) teve trégua e cruzamos um grupo que tinha dormido lá em cima mas estava abortando a travessia – mais presságio ruim. Subimos mesmo assim e enfrentamos um paredão de lama – a cada 3 passos acima, escorregávamos 2 pra baixo. A chuva voltou. O ventou ficou mais forte. Mas alcançamos o cume antes do meio dia, totalmente sem visibilidade. E foi assim por várias horas, subir e descer cristas sem saber pra onde estávamos indo, escalaminhar paredão de pedra com vento forte e totalmente encharcados, com uma ou outra parada de 5 a 10 minutos pra comer qualquer coisa e respirar um pouco. Na verdade, ainda que cansados, dava pra parar por muito tempo, porque os anoraks já estavam molhados por dentro e o corpo esfriava muito rápido e sentíamos mais frio ainda.

Já estava imaginando que não conseguiríamos chegar na Pedra da Mina. Eram quase 17 h quando, depois de vencer mais uma crista, o tempo começou a abrir um pouco, e avistamos um vale enorme mais à frente, com uma montanha protuberante: só podia ser a Mina. Já tinha avisado o Marcelito que não aguentaria muito mais tempo, pois já eram quase 9 horas caminhando em chuva, vento e frio e pouca comida. Decidimos parar num dos próximos acampamentos, e aí começou mais um perrengue, pois passamos por 2 acampamentos totalmente inviáveis, que estavam encharcados. Não tínhamos opção, já estava escurecendo e teríamos que caminhar até achar algum lugar que prestasse pra montar barraca. Pra piorar a situação, subimos por um morro (caminho errado) enquanto procurávamos o acampamento marcado como #20 no tracklog. Quando encontramos a trilha, ainda entramos errado num capinzal, e pra completar, o GPS deu chabu e não mostrava mais onde estávamos. Bateu o desespero: estávamos desorientados de noite, num capinzal, sem visibilidade, sem referência, e perigando tomar uma chuva daquelas. Mas não durou muito – se descemos pro capinzal, teríamos que subir de novo. E nessa subida, nos encontramos a 15 metros do acampamento (era o acampamento Divisa ou Melano, não tenho certeza). Alívio como senti poucos vezes na vida! Montamos a barraca e nos trocamos, e não deu outra, o mundo desabou sobre nós em formato de tempestade. Depois de mais de 9 h de caminhada nas piores condições possíveis, podíamos descansar. De novo pensei, na pior das hipóteses, abortamos no dia seguinte via Paiolinho.

 

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DIA 2

ACAMPAMENTO DOS QUASE PERDIDOS AO PICO DOS TRÊS ESTADOS

 

Na noite anterior tínhamos visto algumas lanternas mais acima de nós. Devia ser um dos grupos restantes. De manhã o céu amanheceu aberto, e o sol apareceu timidamente por alguns momentos, mas iluminava com persistência os topos das montanhas em volta. Mais uma vez foi sofrido vestir a roupa molhada e gelada no frio, e apesar de ter mais um dia duríssimo à frente, tínhamos boa visibilidade e parecia que o tempo ia ficar firme. No caminho, logo cedo, o desafio era subir a Pedra da Mina (2.798m).

Desmontamos acampamento e tocamos em frente. No caminho cruzamos 2 grupos que acamparam improvisadamente, sendo que metade deles ficou com tudo encharcado. Estavam com um menino de uns 12, 13 anos. Mais acima, 2 caras subiam o morro. Em teoria, eram essas pessoas e mais ninguém que estavam fazendo a travessia, e se ninguém tinha chegado ainda à Mina, é porque todo mundo tinha passado muito perrengue. Tocamos pra cima numa subida interminável, cuja parte final era um barranco de capim que não acabava nunca, mas não tinha percebido no que exatamente estávamos subindo… Qual foi minha supresa quando cheguei lá em cima e vi os dois caras assinando um livro de cume? Como assim? Assim sim! Estávamos na Pedra de Mina, em menos de 1 hora de caminhada. E que presente: tempo aberto! Visão em 360 graus da Serra Fina, sol secando a roupa e iluminando bem o caminho. Bom sinal? Se descêssemos a Mina, teríamos que ir até o fim!

Durante o segundo dia o tempo começou a abrir e foi possível apreciar um pouco do que tinha pra frente.

Aproveitamos a paisagem pra recarregar um pouco a bateria, avistamos o tal Vale do Ruah e tocamos pra baixo. Erramos um pouco o caminho mas depois voltamos à trilha. Na descida, cruzamos um grupo de 4 cariocas que ia atravessar o Vale só na base da carta, e convidei eles pra irem com a gente, já que estávamos de GPS. Achar o caminho certo no Ruah é meio difícil no começo, mas depois é só seguir o rio pela esquerda, cruzar à direita e seguir tocando. Apesar do capim alto, a trilha é relativamente visível pra quem tem experiência. Pegamos água no meio do Vale, e em alguns momentos não teve jeito de não meter o pé na água. O capim é realmente isuportável, mas saber que não tínhamos desistido e que iríamos até o fim depois de tanto perrengue, foi bem estimulante. Nessas horas me lembrava do meu amigo Jorge Soto e a travessia perpendicular que ele fez da Serra Fina… deve ter amassado muito capim! Bom, o que tinha começado como uma incerteza arriscada, estava se concretizando em um feito. Ainda faltava muito, mas o tesão – isso mesmo que você leu – da possibilidade de completar essa travessia com todo esse volume de acontecimentos estava virando energia, vontade, perseverança.

Romantismo à parte, depois do Ruah inciamos a subida mais longa da travessia: os dois cumes antes do Cupim de Boi (2.530m) rumo ao Três Estados, um trecho que parece não acabar nunca. Dá-lhe vara mato, capim, subida. Ninguém fala muito, e é possível ouvir a respiração ofegante de quem vai à frente e de quem vem atrás, todo mundo exausto, entretido em seus próprios pensamentos que provavelmente não iam muito além de chegar no Três Estados (2.656m), comer, vestir uma roupa seca e dormir. No cume do Capim do Boi já é possível avistar o dito cujo, o que dá uma mistura de alívio (estamos chegando) e desespero (“ainda tem que descer tudo isso e depois subir tudo de novo?!?!?”). O caminho ainda é longo, e o tempo novamente começou a fechar. A descida parece ser muito íngreme, mas rapidamente descemos a encosta rochosa, atravessamos capinzal, adentramos mata, e depois começamos a subida do Três Estados, com escalaminhada e lama, tudo misturado e bem íngreme. O cansaço era tanto que parecia que dávamos passos de alpinista em altitude: um de cada vez, intercalado com a respiração. Foram dois dias de 9 horas de caminhada, comendo mal e dormindo não tão bem assim. Mas no ponto em que estávamos, pra acabar com o sofrimento, só terminando a trilha. E olha, ô povo que gosta de sofrer…

Chegamos no cume do Três Estados e nos surpreendemos, pois além dos 2 que estavam à nossa frente, tinha mais uns 3 grupos pequenos por lá. E só tinha espaço suficiente pra mais 2 ou 3 barracas. O grupo que em teoria vinha atrás com as crianças tinha desaparecido ficado bem pra trás, e se chegassem ao Três Estados com luz, não teriam onde acampar. Tivemos tempo de montar a barraca e trocar de roupa (eu com luva de Polartec no pé né…), antes de ver um incrível por-do-sol, com um céu bem aberto e uma noite salpicada de estrelas. A travessia que tinha começado como um perrengaço estava nos dando pequenos prêmios, um atrás do outro. O dia tinha sido lindo, sem chuva, e agora, a noite era bem clara. No entanto, o vento estava bem forte lá em cima, e derrubou a temperatura durante a noite. Não foi fácil dormir.

 

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DIA 3

PICO DOS TRÊS ESTADOS À BR 354

 

Se alguém pensa que a Serra Fina tem dia fácil, pensa errado. Não assisti ao sol nascer por inteiro, mas saí sim da barraca de pé pelado pra ver o tapetão de nuvens mais lindo da história da minha vida. De um lado da Serra Fina, tudo encoberto, com as pontas de Itatiaia visíveis, do outro, tudo aberto. No meio, o maciço da Mantiqueira, e nós lá em cima: uma visão que perdurou o dia inteiro.

Roupa molhada, meia e bota encharcadas, cansaço e frio: assim começou o terceiro dia, descendo do Pico dos Três Estados.

Saímos pouco antes das 9 h. O último dia sempre dá a impressão de que vai ser fácil, por ser só descida. Mas a descida na Serra Fina começa bem no fim. Descemos o Três Estados e passamos por algumas cristas, com a impressão de não estar perdendo muita altitude. E aí vem a subida do Alto dos Ivos (2.513m) – mais um trepa pedra totalmente desanimador, debaixo de sol firme. Foi o único dia da trilha em que realmente fiquei preocupada em estar com pouca água. Mas vencida essa última subida, e depois de admirar um pouco a paisagem do último ponto alto da travessia, adentramos uma descida por mata que dura horas, com bambu, planta e capim enroscando na cara, na perna no braço e na mochila. Me seqüestraram uma Nalgene e terminaram de fatiar meus dedos e mãos.

Pra ser bem sincera, essa etapa final da trilha é miserável. São algumas horas caminhando dentro da mata, sem visão de nada, e sem perspectiva de sair, com muita lama escorregadia, num caminho que não acaba nunca e paisagem que não muda, e quando acaba, acaba numa estrada. Falando nisso, uma coisa muito suspeita: quando a estrada bifurca em T, e deve-se tomar a esquerda, que é a descida pra sede da fazenda, Porém, algum “esperto” (pra não falar palavrão) montou uma seta pra direita. Pra quem não tem noção de navegação, ou GPS, ou indicação de nada, vai entrar no caminho errado. Suspeito!

Descemos até a sede da fazenda, depois pela estrada de terra e pelo vale, e finalmente chegamos na saída da BR 354, com seu calçamento octavado, lá pelas 13h30. É uma sensação e tanto, terminar a tal “travessia mais difícil do Brasil”. Não tem como não sorrir, depois de uma conquista tão suada como essa: não foi só fazer a travessia, foi driblar o tempo ruim, correr pra fazer em bem menos tempo que o sensato, chegar inteira, e ainda dar risada no final.

A maior parte da descida do terceiro e último dia foi com esta vista: o maciço de Itatiaia ao fundo, e uma mar de nuvens sem fim.

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Written by Cissa

Fanatic alpinist, rock climber, and wannabe surfer. Sports and travel content writer and graphic designer in the meantime. Self sponsored, based out of a haul bag.

2 Comments

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Getulio (gvogetta)

Olá Cissa!
Muito bom o relato. Serra Fina com tempo ruim é para poucos e determinados a concluí-la! Fico feliz que tenha conseguido. Parabéns pela conquista!
Grande abraço!

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