768 DIAS

Mais de um ano atrás postei o artigo 346 Dias, relatando como tinha sido meu primeiro ano de viagem pra escalar e surfar pelo mundo. Lá no final eu dizia que minha estadia em Chamonix era open ended e de fato, foi. Depois de 18 meses escalando em picos épicos da Espanha e no berço do alpinismo, Chamonix, chegou a hora de voltar pra estrada.

Publiquei no Blog de Escalada dois artigos bem politicamente corretos, um sobre como é viver em Chamonix, dia a dia, e outro também contando minha experiência tendo vivido com transtorno de estresse pós traumático (TEPT). Esses dois artigos dão uma boa base pra entender o que vou escrever em seguida. O ano que começou em Abril de 2015 e terminou agora em Junho foi uma montanha russa, muito por conta do meu estado físico e mental logo que cheguei lá.

No final de Maio completei 768 dias de viagem, e aqui vai um resumão de tudo que rolou entre os dias 346 e 768.

 

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VERÃO 2015

 

Meu primeiro verão em Chamonix está bem ilustrado nesta postagem, em inglês. Basicamente eu estava treinando a base pra escalar o Broad Peak em Maio deste ano, portanto fazendo muita corrida de montanha e um pouco de escalada e alpinismo. Foi uma época de conhecer muita gente e me adaptar a viver na Europa e a desenferrujar meu francês, e começar também a questionar os estereótipos sobre Chamonix.

Eu e Sergio, um dos meus belay slaves, na volta do Mont Blanc.

Como cheguei em Cham praticamente sem dinheiro, trabalhei bastante pra recuperar a conta e poder seguir viagem. Minha ideia era ficar uns dois meses e acabei ficando o verão inteiro. Rolou fazer algumas vias clássicas de vários níveis de dificuldade, e começar a entender o tipo de alpinismo que se pratica nesta parte dos Alpes Franceses.

 

div-blackOUTONO 2015

 

Cume da Aiguille de Chardonnet.

Comecei o outono de 2015 meio sem saber se conseguiria ir ou não pro Paquistão em 2016, já que estava difícil guardar dinheiro devido ao alto custo de vida de Chamonix. Comecei a pensar em algumas opções pra levantar fundos e patrocínio, e continuei treinando focada em resistência e cardio, deixando a escalada em rocha um pouco em segundo plano, mas mesmo assim fazendo algumas saídas pra escalar pelo vale. O verão tinha sido muito quente mas o outono estava com condições perfeitas pra vias longas em rocha e aproveitei sempre que possível.

Escalando via longa na região de Vallorcine.

Mais da metade do caminho durante meu treino do percurso da Maratona do Mont Blanc.

No começo de outubro fiz uma viagem de uma semana com meus pais pra Itália, e já fazia mais de um ano que não via nenhum dos dois. Foi bom pra melhorar os ânimos e aquecer um pouco o coração. Nessa mesma semana recebi a notícia que tinha sido sorteada pra correr a Maratona do Mont Blanc em junho deste ano, um estímulo pra continuar treinando já que a força de vontade pra correr tanto estava começando a definhar.

Meio da caminho da Maratona do Mont Blanc, com as estátuas de Tré Le Champ.

Goulotte Escarra com os irmãos Galve.

De volta à Chamonix resolvi voltar a treinar alguns dias por semana em ginásio, mas os da cidade infelizmente são só salas de boulder, uma modalidade que eu sempre fui super fraca, e de cara já rompi a polia do anular esquerdo. A médica mandou eu me jogar na corrida porque não escalaria por pelo menos três meses e a recuperação também seria lenta. Super frustrante, mas realmente não tinha o que fazer, e eu mal podia segurar uma caneca com o dedo machucado. Me joguei na corrida e em pouco tempo, num dia de clima incrível, corri o percurso da prova que ia fazer, me perdendo um pouco e no final correndo 48 km com quase 3000 m de elevação.

Geleira de Le Tour vista do refúgio de inverno. Aiguilles Rouges ao fundo.

Super orgulhosa e me sentindo na melhor forma da minha vida, mesmo estando perto dos 35, senti que se rolasse Broad Peak mesmo e tudo desse certo, ia subir com os pés nas costas.

Ainda sem a certeza da expedição mas com a certeza de que não escalaria nada durante o inverno, resolvi pegar umas horas extras no trabalho pra juntar mais grana, e fazer direitinho a fisio pra me recuperar bem pra quando o verão chegasse trabalhar meio período e escalar o máximo possível.

Veio Novembro, e com todas as infos nas mãos, fiz as contas e tive a certeza de que não ia conseguir bancar a ida ao Broad Peak. Além da frustração de não poder escalar, fiquei ainda mais frustrada de agora ter treinado à toa, e de não ter o projeto pelo qual já estava trabalhando fazia tanto tempo. Tudo isso junto e cheguei no fundo do poço do TEPT. No começo de dezembro pirei quase que completamente, deprimida e totalmente perdida em relação ao que fazer da vida, achando que nunca mais ia escalar e totalmente sem perspectiva. Foi uma época em que senti minha identidade destruída, e não fazia mais sentido seguir viajando, escalando, levando esse estilo de vida. Óbvio que tudo isso foi depressão e passou.

Inesperadamente, veio a notícia que minha irmã viria me visitar, e que eu tinha conseguido o resto do dinheiro que faltaria pra completar a expedição. Isso foi a motivação que faltava pra eu finalmente superar o TEPT e começar e me reconstruir como escaladora. Acordei um belo dia cansada de ter pesadelo, da deprê, dos flashbacks, da dor e de toda negatividade desse inferno de doença. Decidi parar de fazer planos, me afastar de umas pessoas nocivas, e de simplesmente aproveitar um dia atrás do outro. Foi nessa época também que caiu a ficha de que eu estava entrando num caminho de escalar pros outros e não pra mim, e mesmo com a positiva pro Broad Peak, decidi desistir do projeto e escalar o que realmente gosto, mesmo que ninguém veja ou fique sabendo, e que seja numa montanha nos cafundós do planeta e que ninguém nunca tenha ouvido falar, como sempre fiz antes de ter essa exposição de escrever pra mídia especializada e consequentemente das pessoas criarem expectativa sobre meus próximos projetos. Foi libertador.

Um dos últimos dias de céu limpo antes do inverno chegar pra valer.

No final de dezembro fiz minha última corrida longa em altura, antes da neve começar a realmente cair pesada. Trabalhei no Natal pra ocupar a cabeça, e tive um ano novo fofo com o namoradinho da época, depois de querer dar uma de esperta e espirrrar champagne na minha cara. As coisas estavam finalmente começando a ficarem mais leves. Mesmo assim, ainda teria que atravessar o inverno.

 

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INVERNO 2016, O HORROR

 

Me diziam que o inverno passado tinha nevado pouco com muitos dias de sol, e eu estava esperando que fosse assim mesmo. Foi totalmente o contrário, do momento que começou a nevar pesado na cidade no começo da cidade, até a última nevada no meio de Maio, tivemos talvez 6 ou 7 dias de sol. Eu olhava pra fora das minhas janelas e só via brancura e a casa do vizinho, numa sensação de estar dentro de uma caixa de sapato. Deprimente, sufocante, claustrofóbico.

Um dos três dias de céu limpo de todo o inverno.

Num dia à toa surfando a net, encontrei por acaso uma passagem barata pro Peru, e de loucura comprei. Em alguns minutos fui de não ter projeto pra ter um projetão: 6 semanas de alta montanha, big walls e surfe no Peru, e 3 semanas de escalada e surfe no Brasil, além de passar meu aniversário por lá.

Super motivada com o projeto, voltei pro ginásio de escalada, ainda sem poder escalar nada forte, mas treinando resista em mãos abertas e tudo bem de leve. Mas foi só querer fazer um boulderzinho que pá! Outra polia arrebentanda na mão direita. Me doía tanto que não podia nem pegar em piolets pra escalar gelo, e aceitei o fato de que iria perder a temporada de escalada em gelo e mixta, justo o que eu estava mais esperando. Me resignei a me recuperar no ginásio, o que não foi difícil pois não parava de nevar. Mesmo assim parecia que tudo continuava dando errado, e juntando com o clima horrível, o inverno foi uma amargura só.

Primeiro dia de corrida com bastante neve.

Um típico dia de corrida no meio do inverno.

Ingênua que sou, achei que faria um monte de amigos no ginásio, igual rola no Brasil. Mas depois de 3 semanas tentando me aproximar das pessoas e só levando umas encaradas meio de psico, comecei a escalar de fone de ouvido, bem anti social mesmo, mas pelo menos não foi por falta de tentar. As poucas pessoas que eu conhecia nesse ginásio não me apresentavam pra ninguém, talvez porque parceiros de escalada são concorridos por Chamonix, mas explicarei isso mais pra frente. Infelizmente a impressão negativa que eu vinha tendo da comunidade de escalada se comprovou mais uma vez.

Primeiros dias de rocódromo, quase uma múmia de tanto taping!

Em termos de corrida, no começo achei legal correr na neve, mas a motivação não durou muito. É muito complicado sair pra correr com temperatura negativa e um monte de roupa, abrindo trilha e debaixo de nevasca. Acabei pegando uma virose e fiquei doente quase 2 semanas, e no final o treino de cardio durante o inverno foi bastante inconstante, até porque às vezes tinha tanta neve que simplesmente não dava pra sair na rua.

E nesse dia aprendi a esquiar a fazer snowboard. Caí algumas vezes e fiquei três semanas com dor nas costas. Pra que né…

Meu boneco(a) de neve transexual e punk.

Passando ainda mais frio durante jogo de hóquei no gelo.

Aprendi a esquiar e a fazer snowboard, mas não amei… além do que são esportes super caros e eu não estava a fim de gastar meu salário inteiro em passe e aluguel de equipamento.

O lado bom do tempo ruim é que passei tanto tempo trancada em casa, no trabalho e no ginásio, que montei um programa de treino, nutrição e suplementação super bacana, que foi seguido quase à risca até o final de Maio. Funcionou super bem, e além de mudar ainda mais a composição corporal, aprendi a comer melhor e comecei a ver resultados bastante expressivos na escalada.

Os últimos dois meses de planejamento de treino. E essa é só a primeira página…

E apesar do sol se por às 4h30 da tarde no inverno, e com tudo de difícil que aconteceu desde o final de 2015, o inverno foi passando e fui percebendo que finalmente tinha superado o TEPT. Finalmente ver a luz no fim do túnel foi suficiente pra me deixar feliz, e uma excelente maneira de começar 2016. Sobrevivi, à doença e ao inverno.

Vista da minha janela da cozinha em 98% dos dias de inverno.

 

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PRIMAVERA 2016

 

O inverno deixa as pessoas assim, loucas.

A primavera chegou com uma janela de condições e clima excelentes. Finalmente os dias de bom clima coincidiram com meus dias livres, e achei que era o momento de colocar em prática um projeto solo dos sonhos na Aiguille Verte, mas depois de ouvir umas histórias de esquiadores solo caindo em gretas e acidentes, achei melhor aceitar a proposta de um amigo espanhol iniciante de fazer alguns corredores fáceis por Argentiére. Infelizmente foi a primeira e única janela da primavera inteira.

Começando o Couloir Chevalier na Petit Aiguille Verte.

Faces nortes de Argentiére super convidativas na melhor janela de tempo bom da primavera.

Mas a primavera veio trazendo momentos alegres, por exemplo a cada vez que eu podia começar a escalar sem o taping, ou quando entrava em fases novas do meu programa de treinamento, e fui vendo não só meu corpo reagindo ao treino mas também minha habilidade na escalada voltando. Cada vez que ia no ginásio notava melhora, e meu nível foi subindo com uma rapidez que eu não esperava. É impressionante a transformação que promovi no meu corpo por dentro e por fora desde que cheguei em Chamonix, mas principalmente a partir do inverno. Nem precisa comentar o quanto eu fui ficando motivada.

De novo diminuí o volume da corrida pois estava ficando muito cansada pra escalar, e quase entrando em over training, sempre cansada e até com insônia. Decidi então em vez de fazer 2 semanas de polimento no fim de maio, transformar o polimento em caminhadas longas o mês de maio inteiro. Fiz uma base tão boa de cardio desde o verão que não achava nevessário melhorar, só manter.

E finalmente começamos a ver cores pela cidade…

Chamonix voltando a ser bonita! Chega daquela meleca branca!

Quando finalmente comecei a voltar pra rocha, depois de 8 meses sem tocar rocha, já entrei avistando 6sup, o que dadas as condições, não estava ruim. Apesar de não ter tido oportunidade de ficar malhando via pois os dias secos foram poucos e às vezes só dava pra escalar poucas horas antes ou depois do trabalho, me senti mais forte do que nunca. Graças a tanto boulder, corrigi um monte de vícios e falhas técnicas que tinha, me sentia mais confiante pra guiar e fazer dinâmicos, e no geral, saí de Chamonix mesmo assim mais forte do que quando cheguei. Claro que muito boulder também não é tão bom, e tive minhas dorzinhas de ombro e lesões pequenas em outros dedos, mas Chamonix é assim, somos todos uns exagerados fazendo atividade física o tempo inteiro. A quantidade de gente engessada e quebrada que vi em Maio era assustadora, e até que fiquei feliz de que minha lesão foi no invenro, pois estava pronta pra aproveitar a temporada. De novo, a disciplina, dedicação e paciência dos meses anteriores valeu a pena, e muito. Treino, essa palavra que tanta gente odeia, mas que pra mim só traz coisa boa. Hard work = resultado.

div-blackVERDADES SOBRE CHAMONIX, MAS QUE NINGUÉM FALA

 

Um dos meus parceiros dizia que Chamonix é um ótimo lugar pra vir passar um mês já com parceiro, e escalar até não aguentar mais. Concordo 100%. Mas viver aqui não é fácil.

Pra começar, vou separar a cidade das montanhas. São coisas completamente diferentes. Na cidade tudo é caro, em geral três vezes mais que na Espanha por exemplo, e isso inclui o acesso à montanha, ou seja, os teleféricos. É difícil guardar dinheiro, e se voce não guarda, obviamente não tem como sair daqui. Pra quem gosta de se mover como eu por exemplo, isso é um ponto negativo. Mas se voce guarda dinheiro, é porque não está gastando, ou seja, não está escalando pra poder economizar. Pra comprar o passe anual dos teleféricos (800 euros mais ou menos), você tem que ter a papelada de residente e contrato de trabalho francês, e isso leva tempo pra conseguir. Se não tem, o preço do passe sobre pra 1600 euros. Ou seja, voce está ralando pra guardar dinheiro pra comprar o passe, não sobra pra mais nada e no final escala pouco porque pra acessar as montanhas sem teleférico é preciso mais que seus dois dias livres por semana.

Envers des Aiguilles no começo de Maio.

A comida é cara, os aluguéis são caros, tem que divider apartamento e casa com um monte de gente pra conseguir economizar. Ir pra balada é caro, renovar equipamento também já que as marcas européias são caríssimas. Comer fora nem pensar. Os salários são baixos pro quanto se gasta mensalmente. O negócio é tão feio que parei de comer carne/frango/peixe porque o preço é simplesmente proibitivo.

Apesar de ser fácil de achar emprego, por aqui tem muita molecada que nunca trabalhou na vida e faz as coisas bem de qualquer jeito pra poder esquiar/escalar no fim do dia. No final das contas quem tem mais experiência acaba tendo que consertar as cagadas dos outros, se estressa e sai cansado, mesmo também querendo escalar no final do dia. A rotatividade nos empregos é intensa, e os chefes não se importam muito porque sai um empregado hoje, amanhã ele encontra outra pra substituir.

E finalmente, o tema mais polêmico, que todo mundo sabe mas ninguém fala: a comunidade de escalada. Me avisaram várias vezes antes de chegar e mesmo já em Chamonix que rolava muita panela das nacionalidades – principalmente britânicos e espanhóis – era muito difícil penetrar nos grupinhos, e que por conta do alto nível do pessoal, rolava todo tipo de preconceito e ego trip. Infelizmente é tudo verdade, e um dos grandes martírios de viver em Chamonix é arranjar parceiros de escalada regulares, ainda mais se considerando que as pessoas tem descanso em dias diferentes, e o clima ainda tem que coincidir com tudo isso.

Claro, existem alpinistas fortissimos por aqui. Não são esses que estão pelos bares enchendo a cara todo dia, muito pelo contrário, são gente que dificilmente se vê pela cidade, e quando eu os via era pelo ginásio treinando em dias de clima ruim. A maioria são guias de montanha e com algum tipo de patrocínio, às vezes até na forma de salário alto o suficiente pro cara nem ter que trabalhar.

Mas o grosso da comunidade é composto não de alpinistas, mas de escaladores de rocha que quase nunca sobem pro maciço (pra fazer alpinismo), esquiadores que não tem o que fazer no verão e dão umas escaladas, e muita gente que começa a esquiar/escalar quando vem pra cá. Surpreendente, mas é como são as coisas. E essa galera não tem muito ideia do que é alpinismo, então muitos acham que só o fato de viverem em Cham os torna melhores do que na verdade são.

Soma-se a essa atitude o ar carregado de egocentrismo e a eterna concorrência entre as pessoas pra ver quem é melhor que quem, e o resultado é uma comunidade pouco unida, de nível técnico questionável, de comportamentos arriscados e formação bastante falha e deficiente. Ouso dizer que a galera em Chamonix é péssima de route finding (orientação em glaciar ou em via), técnicas de improvisação na montanha, uso de equipamento móvel, leitura de geleira, de clima… o pessoal escala grau forte mas a verdade é que não vão muito além disso. Talvez isso explique a quantidade de acidentes por motivos esdrúxulos todas as temporadas, fora as histórias inacreditáveis de gente que vai escalar via muito acima da capacidade e quando cansa chama o helicóptero dando todo tipo de desculpa esfarrapada. Sim, acontece.

Óbvio que aqui também rola bastante machismo. Os alpinistas mais fortes só escalam entre eles e só convidam mulher no caso de ser alguma com nível muito alto, ou se for com segundas intenções. Meu nível está longe de ser de elite, mas tenho nível suficiente pra me colocar na posição de “levar pra escalar” gente de nível iniciante e intermediário, o que sempre me facilitou encontrar parceiros, pois inciantes é o que mais tem aqui e eles estão sempre loucos pra subir com gente mais experiente. Em outras ocasiões vieram amigos europeus pra Chamonix de nível mais alto, e aí sim eu consegui entrar em vias mais difíceis. Me ajudou bastante também as comunidades online como o CamptoCamp, e o livro de parceiros da Office de Haute Montagne, já que por lá sempre tem gente sem frescura querendo muito escalar. Com os americanos sempre me dei bem e rolaram boas parcerias, assim como acontece sempre no Peru. Achei algumas meninas bem fortes de rocha mas nenhuma com nível pra entrar em vias mais bacanas de alpinismo (existem pouquíssimas, mesmo por aqui).

Finalmente fizeram sentido impressões e estereótipos – positivos e negativos – que tinha de escaladores europeus que conheci pelo mundo. Mas no final é bem triste que num lugar como Chamonix seja tão complicado pras pessoas se interarem na comunidade de escalada, e isso é um problema que afeta muita gente mesmo. Todo mundo que não é fodão reclama que é difícil encontrar parceiro, mas as pessoas só querem escalar com os fodões, e infelizmente muita gente mente sobre sua capacidade, o que pode criar problemas muitos sérios durante uma escalada, e no final tudo isso é um círculo vicioso que não termina bem.

Tudo isso pra dizer que Chamonix é o único lugar do mundo onde tive dificuldade pra encontrar parceiros. Principalmente mais no final da minha estadia tinha vários amigos escaladores de rocha bem motivados querendo subir comigo, mas apesar de ser legal ir com amigos fazer vias tranquilas, às vezes voce quer subir pra fazer viazona de responsa e aí não tem parceiro. Treinar alguém leva tempo, e tempo na minha idade é luxo.

Apesar de Chamonix atrair muita gente estranha e meio desajustada (e não me isento de representar muito bem esse grupo…), criei laços muito fortes por lá. Foram amizades tão intensas que sair de Chamonix foi mais doído que sair de praticamente todos os outros lugares onde passei antes. Da cidade não vou sentir muita falta, mas é um pouco frustrante sair sem ter escalado tanto quanto gostaria. Com certeza quero voltar com cordada fechada pra mandar ver tudo que não escalei por lá.

No final acabei inventando a definição de que Chamonix é a Terra do Nunca, e a comunidade de escalada é o Big Brother da Terra do Nunca. Até hoje ninguém discordou…

Chamonix é uma marca servindo uma indústria, e isso tem uma influência direta no tipo de pessoa que é atraída a fazer turismo e/ou viver lá. Fico pensando que se a indústria do montanhismo estragou o Everest, e essa mesma indústria transformou Chamonix nesse sonho utópico porém inócuo, o que mais ela pode fazer com outras cordiheiras? Será que nem as montanhas mais remotas e difíceis estão livres de serem tragadas pela escalada comercial e predatória? Bom, isso é assunto pra outro artigo…

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VERDADES SOBRE AS MONTANHAS DE CHAMONIX,
MAS QUE TODO MUNDO JÁ SABE

 

Chamonix dispensa apresentações do ponto de vista de escalada. A fama vem por uma razão, e basta fazer uma busca básica pela internet pra pirar nas imagens. É um lugar que merece mais de uma visita pra qualquer alpinista, pra provar o excelente granito vermelho do maciço, as fendas perfeitas, a exposição e as famosas arestas super aéreas, tudo isso a 20 minutos de teleférico da cidade. Dá pra fazer vias incríveis e difíceis em dois dias e voltar na segunda noite pra tomar uma cerveja e dormir numa cama com todo conforto do mundo.

Drus vistos de Montenvers.

Pra quem não gosta de aproximações longas, mochila pesada, comida de acampamento e sofrimento em geral, é a pedida perfeita. Pra mim o alpinismo daqui não é o alpinismo de verdade, puro, e eu como boa andinista curto todo o processo de escalar montanha. Acho mais correto definir o alpinismo daqui como altitude cragging, escalada de prazer em altitude. E se esse é seu estilo, são milhares de vias pra mais de uma vida, com comforto, facilidades mil e vez ou outra encontrando um escalador celebridade pelo caminho.

O estilo de vida Chamoniarde é bastante intenso. Andei me perguntando muito o que aprenderia em todo esse tempo por lá. Não cheguei numa conclusão absoluta, mas uma coisa é verdade, e é que minha carreira como escaladore foi muito influenciada por essa intensidade diária. Antes de chegar aqui eu estava indo por um caminho de começar a escalar oito mils, e agora me direcionei em definitivo mais pra vias técnicas de rocha e gelo alpino. O primeiro estilo exige um compromisso imenso de tempo, treinamento, trabalho e politicagem e socialização que eu simplesmente não me identifico, fora que custam um dinheiro que eu me recuso a gastar numa ou outra montanha só. O segundo estilo me permite fazer escaladas pra valer, vivenciar a rocha e o gelo no dia a dia, mais exploração, e muito mais divertimento sem o lado comercial. E se não fosse pela intensidade com a qual as pessoas vivenciam a escalada em Chamonix, eu não teria tomado a decisão consciente de definitivamente ir atrás do que eu realmente gosto e faço bem ao invés de ir pra um caminho que era mais um roteiro comercial do que as pessoas leigas, a mídia, e as grandes agências de expedição esperam que voce faça.

Luz no fim do túnel, hora de ir embora.

 

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PRÓXIMOS PASSOS

 

Vim pra Chamonix pra ficar uns meses só pra arranjar dinheiro pra voltar pro Brasil. Acabei ficando o verão, depois o outono, o inverno, e quase toda a primavera. Ia passar o verão no Peru e Brasil e depois voltar pra trabalhar uns meses mais, juntar uma graninha e depois voltar pro casamento da minha irmã e ficar pelo Brasil antes de ir pra Patagônia. Mas no final das contas, financeiramente e em termos de treinamento pra Chaltén, seria mais jogo ficar pelo Brasil direto. De última hora no final de Maio resolvi que em Junho voltaria de vez pra América do Sul.

Viver na Europa é confortável, seguro e fácil (menos a burocracia francesa). Mas isso não significa que é fácil se adaptar. Os valores são muito diferentes, a as pessoas muito frias, mesmo os escaladores. Tive sorte de, como sempre, virar melhor amiga das pessoas mais legais, então não sofri tanto, mas no geral a frieza me afetou bastante, talvez também porque fiquei quase 2 anos fora do Brasil sem ver a família e amigos, e depois de um 2014 conturbado cheguei em Chamonix sem rede de apoio.

É difícil também viver numa sociedade bastante alheia aos problemas do resto do mundo, considerando que eu faço parte do resto do mundo. A bolha é muito forte, e achei o pessoal de Chamonix mais alienado que os americanos. Infelizmente não me adaptei, e eventualmente me cansei da dinâmica das relaçoes sociais de uma cidade de montanha europeia. Minhas raízes brazucas e montanheiras andinas falaram mais alto e chegou a hora de voltar pra minha cordilheira preferida. Depois de escalar em 4 continentes, os Andes ainda são pra mim, absolutos.

Começa então o ano 3 de viagem. Alguns meses de alpinismo e escalada na queridíssima Cordilheira Blanca, muita escalada em rocha Brasil afora, e tudo dando certo, muitos meses pela Patagônia e Andes argentinos. Estudar também algumas propostas de trabalho e negócios que apareceram no último ano, pra viabilizar a movimentação. O que vem depois é como sempre uma incógnita, mas tenho os Andes inteiros pra procurar repostas. Escrevo este texto no avião de Genebra a Madri, respirando aliviada, e cada vez mais perto de casa.

Tenho uma sensação de que talvez devesse me sentir culpada de não ter dado muito certo em Chamonix, mas por outro lado muito segura de que sou uma andinista nata, de vida simples e paixão pelos Andes, cujo paralelo não vi em nenhum dos outros continentes por onde passei. Meu lugar é pela nossa linda América do Sul, com todos os problemas que temos, mas com a humanidade que só existe no terceiro mundo. Não dá pra ter tudo, mas temos os povos mais incríveis e as montanhas mais lindas, e pra mim é suficiente.

Dúvida cruel: qual Huandoy escalar este ano?

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Written by Cissa

Fanatic alpinist, rock climber, and wannabe surfer. Sports and travel content writer and graphic designer in the meantime. Self sponsored, based out of a haul bag.