346 DIAS

Tudo tem um fim, mesmo uma viagem sem data pra acabar. Foram quase 12 meses arrastando por 3 continentes 40 kg de equipamento, escalando em algumas das cordilheiras mais incríveis do mundo, surfando em algumas das ondas mais famosas, comendo das comidas mais exóticas, e conhecendo sempre muita, mas muita gente incrível.

Mas viajar cansa, e às vezes algumas expectativas não se cumprem. Faz alguns meses comecei a sentir muita a falta de um lugar meu, onde eu pudesse ter uma rotina. Comecei a me preocupar demais com a conta bancária minguando, fora o euro e o dólar cada vez mais caros. Apesar de ter escalado muito, meu condicionamento físico caiu bastante pela falta de um regime constante de exercícios. Meu grau na escalada em rocha também voltou pro começo. Tudo isso junto e a vontade de ter um grande projeto pros meus 35 anos no ano que vem me fizeram ou tomar algumas decisões ou deixar a vida se encarregar delas, o que me proporcionou um surpreendente e inesperado desfecho.

Aqui vai resumão desses quase 12 meses de viagem.

 

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Face sudeste do Artesonraju

 

Sou uma apaixonada pela Cordilheira Branca. Considero que foi lá que me tornei alpinista pra valer. Foi lá que aprendi quase tudo que sei de escalada alpina, em alta montanha. Foi lá que estabelei minhas duas relações de tutoria, ou como se diz mais comumente, arranjei “mentores”. Passei um mês por lá em 2013, e depois que decidi finalmente acabar com a novela que estava minha situação profissional e descansar a cabeça um pouco, só existia uma opção de onde fazer isso.

Cheguei na primeira quinzena de maio de 2014. Já nos primeiros dias recebi a notícia da morte do Parofes, o que me deixou bastante triste porque sei que ele queria ter escalado por lá. Comecei com montanhas fáceis pra aclimatar, fazendo cume no Ishinca e Urus. Depois disso foi uma sucessão de clássicas, como o Chopicalqui e o Tocllaraju. Escalei novamente o Huamashraju, no qual já tinha feito cume em 2013, mas desta vez por 300 metros de fissuras de granito numa belíssima via clássica de alta montanha. Fazendo boulder numa tarde de descanso conheci Bruno Sourzac e Rolo Garibotti, duas figuras simpatissíssimas.

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Ranrapalca, belíssima, e a direta da face norte no meio da rampa de neve, via que tentamos em julho

Eu e Craig no cume do Quitaraju

Descendo do Tocllaraju

Eu, Nacho e Kepa subindo ao acampamento moraina do Huamashraju

Eu e meu amigasso e mentor, Victor Rimac, no Shaqsha

 

Depois veio a tentativa precoce de escalar o Shaqsha, que está na capa do guia de Brad Johnson, e só viu um cume no final da temporada, já com condições completamentes diferentes. Daí veio a escalada do Quitaraju, também uma das 3 cordadas a fazer cume na temporada, a desistência já no campo base de subir o Alpamayo por conta da nevasca, o ataque à belíssima direta da face norte do Ranrapalca, e os dias traumáticos no Vale de Parón, onde conheci Ueli Steck, fizemos uma tentativa em péssimas condições na face sudeste do Artesonraju, caí numa greta, e posteriormente onde faleceu nosso amigo Cole, na Pirâmide de Garcilazo, onde iríamos escalar a mesma rota.

Depois de 10 semanas e 9 montanhas, (parte 1 e 2 do relato, parte 3 somente em inglês) mais a morte de nosso colega em Parón, decidi me desconectar do alpinismo e desci pra Huanchaco, onde aprendi a surfar, passei meu aniversário, e conheci algumas pessoas que me fizeram muito bem.

Ceviche peruano, o melhor!

Bartola, a gatinha, e Paul, holandês gente boníssima que me ensinou muito de surf, na Casa Amelia

As crianças holandesas, Sjoerd e Joris, e o milionésimo jogo de djenga

Um dos muitos bolos de chocolate com capuccino que comi pelo Peru, no Chocolate Café em Huanchaco

 

Na última semana recebi a visita da Priscila, e fizemos o trekking da Laguna 69 e depois fomos escalar em Hatun Machay.

Os 4 meses no Peru me proporcionaram um ganho enorme de técnica e conhecimento na escalada super alpina, além da oportunidade de fazer dezenas de novas amizades, principalmente espanhóis e americanos. Foi com dor no coração que saí de Huaraz numa noite de domingo, me despedindo da Zarela e deixando em minha história alguns dos que foram os meses mais felizes da minha vida em muito tempo.

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Amizade forte: visita da Pri na minha última semana no Peru

Eu e Zarela com alguns dos muitos espanhóis que conheci por lá

Zare e eu na Laguna 69, praticamente irmãs!

Sex Burger em Huaraz, imperdível!

 

Em Huaraz sempre fico na Casa de Zarela, um hostel de escaladores e trekkers, muito frequentado por espanhóis, americanos e franceses. Está entre as opções mais baratas e é super confortável além de ter um café da manhã incrível. O melhor daqui é que todo mundo acaba conhecendo todo mundo, e os hóspedes vão criando uma grande família espalhada pelo mundo. Quem se hospeda uma vez por lá, sempre se hospeda por lá.

Também recomendo o Cafe Andino pras tardes de descanso, e o Xtreme Bar pras noites na cidade. Se bater a larica na madrugada, parada obrigatória no Sex Burger, mas esse não tem site. Em Huanchaco, recomendo a Casa Amelia, um hostel gerenciado por um holandês muito gente boa, de frente pra praia e super aconchegante.

 

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BRASIL

 

Os acontecimentos em Parón me afetaram muito, e ao invés de ficar por lá até o fim de setembro, fiquei até o fim de agosto. Tendo em Huaraz decidido ir pro Nepal, resolvi passar um mês no Brasil com família e amigos próximos, além de poder organizar melhor a escalada do Ama Dablam. Me acalmei, estive com pessoas queridas, meditei, descansei, comi comida de mãe. Depois de muita burocracia e infinitas trocas de e-mail em inglês macarrônico, parti em 1 de outubro pra Kathmandu.

Encontro entre amigos em outubro no Brasil

 

 

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NEPAL

 

A Ásia sempre me intimidou. Apesar de já ter vivenciado a pobreza extrema da África, ainda não tinha feito uma viagem pra algum lugar com cultura tão contrastante quanto a dos países da Ásia. Passei quase uma semana em Kathmandu finalizando os detalhes da escalada enquanto meu parceiro não chegava, e explorando a cidade e suas peculariades culturais e religiosas.

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A foto mais importante do Nepal: cume no Ama Dablam

 

Em 3 semanas no Vale de Khumbu, escalamos o Island Peak e o Ama Dablam, o primeiro com meu parceiro já com mal de altitude. Mesmo assim chegamos ao cume sem cordas fixas, numa divertida escalada. Na semana seguinte segui para subir em solitário o Ama Dablam, mas a partir do acampamento 2 acabei indo junto a dois espanhóis que se tornaram desde então grandes amigos meus.

Apesar da morte de um companheiro de permisso que fez cume conosco, de lesões e acidentes com outros dois, e do difícil relacionamento com as expedições comerciais, meu sucesso no Ama Dablam me ajudou a superar as dificuldades e acontecimentos ruins da temporada no Peru. Muita conversa com meus mentores e pessoas mais experientes também me fizeram entender e processar melhor toda a intensidade de acontecimentos ruins que são inerentes e às vezes inevitáveis ao montanhismo. Tudo isso me devolveu a vontade de escalar que tinha se apagado um pouco depois do Peru.

Com madrileños antes de sair pro ataque ao cume do Ama Dablam

O que sobrou da expedição antes de voltar pra Kathmandu

Minha última janta no acampamento base: chique no úrtimo!

 

Tive dias inesquecíveis durante o trekking no Vale do Khumbu e em Kathmandu, convivendo com pessoas simples mas cheias de alegria, numa cultura honesta, sincera e íntegra. O Nepal é um país encantador não só pelas imponentes montanhas do Himalaia, mas também pela riqueza espiritual e cultural de sua população, carregada de história. É um lugar que alimenta a alma, e nos faz lembrar todos os dias de valorizar tudo aquilo que é simples e que não se pode comprar.

O contraste entre o povo nepalês e a indústria de montanhismo no país me levou a escrever o que considero um dos meus textos mais honestos e lúcidos, “Ser mais que parecer”, também resultado do privilégio de ter conhecido alguns dos maiores alpinistas da atualidade, de ter escalado com pessoas extremamente talentosas, e de ter me desenvolvido o suficiente para entender o quanto é importante no alpinismo o buscar, e não o esperar acontecer.

A “cordada”: outra amizade forte construída graças à escalada

 

Nos meus dias em Kathmandu fiquei em diversos hotéis e hostels, alguns escolhidos pela agência, mas meu preferido foi um que descobri por acaso e consegui bons preços através de sites de reserva. o Heritage Hotel fica no centro de Kathmandu mas não meio da bagunça, tem um terraço incrível no último andar e funcionários super simpáticos. Meu café favorito é o Revolution Café, escondido num bequinho mas com comida incrível. O New Orleans Café tem um hamburguer maravilhoso e de noite é um bom hang out de gringos. Pra uma comidinha rápida e super barato recomendo o Chik and Falafel, uma barraca de esquina que vende wraps baratíssimos. Não tem site mas todo mundo conhece.

 

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BALI

 

Kendungu, um dos meus spots preferidos em Bali

 

Virou hábito: depois de muito tempo escalando, tenho que surfar. Estando ali perto, e tendo ainda mais 1 mês antes de minha passagem pra Espanha, arrisquei uma visita à uma das mecas do surf.

Passei a maior parte do tempo em Canggu, um vilarejo em crescimento e cheio de hipsters, mas com boas ondas e line up relativamente vazio, sem o oba-oba infernal de locais ultra turísticos como Kuta e Legian. De lá conheci outras regiões da ilha como Ubud, Serangan e Bedulgul, entre outros. Mas o principal mesmo foi surfar, o que eu fazia 2-3 vezes por dia, 5-6 dias por semana, tirando o domingo pra fazer passeios culturais.

Uluwatu, lugar paradisíaco e uma das melhores ondas do mundo

Saudade da piscina do camp! Essa foi a parte “luxo” da viagem

Terraços de arroz de Ubud

Cachoeira de Git Git

 

Voltei preta de corpo e semi-loira de cabelo, encantanda com a culinária balinesa e suas infinitas especiarias e combinações de verduras e temperos.

Pratão de Nasi Campur

 

Apesar da Indonésia ser um país mulçumano, Bali é predominantemente hindu. Existem pequenos templos em quase todas as casas, e grandes templos em quase todos os bairros. Poucas praias superam a beleza das praias brasileiras (Uluwatu é um exemplo), e o verde das plantações de arroz é impressionante, mas o que mais encanta mesmo são os balineses, eternamente sorrindo, e com uma gentileza infinita.

Momentos depois de tomar uma pranchada da morte

Em Canggu fiquei no Stormrider Surf Camp, de uma família alemã, e depois num dos poucos hostels da ilha, o Surfer´s House, mais simples mas também muito mais barato. O dono, Indra, dá aulas de surf e aluga equipamento. Pra tomar café, recomendo a granola com frutas, iogurte e mel do Canteen Café. Refeições vegetarianas ou não em receitas incríveis no Betelnut, melhor restaurante do vilarejo. Café de verdade e croissants no Monsieur Spoon (caro mas pra quem não vive sem café vale a pena). Em Canggu tem um filial do Deus Ex-Machina, uma loja de customização de motos, originária da Austrália, com restaurante, bar, barbearia, loja de roupas e oficina. A comida não é boa e é cara, mas o lugar é interessante e rola uma festa bacana com música ao vivo e uma galera saudável e bonita do surf no final dos domingos. Comida indonésia sempre no Warung YESS, pertinho do Stormrider: prato de caminhoneiro a 1 dólar e depois siesta ao lado da piscina. Vida difícil essa do surf… confesso que é uma tentação largar o alpinismo e me mudar pra uma ilha no Pacífico e ficar por lá.

 

div-blackESPANHA

 

O motivo da visita à Espanha foi principalmente de escalar (desenvolver minha escalada em gelo, mista e invernal) e visitar as pessoas que conheci no Peru. Cheguei uma semana antes do Natal e já saí pra escalar cascatas em Gredos, com um dos meninos que conheci no Nepal. Passei alguns dias nos museus de Madri, e pra quem gosta de arte, o Prado, Thyssen e Reina Sofia são obrigatórios. Por lá fiquei no Mad4You, um hostel bem novo com quartos enormes, mas bem central, preço acessível e excelente café da manhã.

No cume do Almanzór com o Dani

 

Já na Catalunia, a convite do David, fizemos uma tentativa de abrir uma via numa das últimas caras nortes virgens dos Pirineus, escalamos em Montserrat, fizemos um pouco de dry-tooling em Baguergue, e escalamos cascatas de gelo em Pedraforca. Relato em português aqui.

Furgos perfeitas no Bairro Gótico de Barcelona, um dia ainda terei uma!

Meus anfitriões em Barcelona, David e José, casal nota 1000

Guiando um A2 nos Pirineus

 

A próxima parada era o país Vasco. Comecei fazendo turismo em Bilbao, onde recomendo o Gambara Hostal, moderno e com bom café da manhã, mesa de ping pong e de pebolim, e barato pros padrões vascos, que é uma das regiões mais caras da Espanha. Também recomendo visitar o Museo Vasco que é super interessante, o Museu Guggenheim que tem uma coleção de arte moderna americana in-crí-vel, e pegar o metrô até Plentzia e visitar as cidadezinhas da costa.

Uma das obras externas do Guggenheim Bilbao

 

Depois encontrei com amigos em San Sebastian, onde não recomendo nenhum hostel porque são todos velhos e caríssimos, ou seja, escolha o que custar menos. A cidade é linda, e vale muita a pena estar por lá numa quinta feira quando rolam os “Juevintxos”, onde você come um pintxo (uma porção de comida gourmet) e toma um vinho por 2 euros. San Sebastian, ou Donostia em vasco, é uma das melhores cidades do mundo pra comer. Pro café da manhã recomendo o argentino Maiatza, hamburguers no Va Bene, e pintxos em qualquer bar do Casco Viejo, pois quase sempre são muito bons. Só se prepare pra cara fechada dos vascos… Pra surfar na cidade, se você já passou da fase “iniciante absoluto”, recomendo Zurriola. Na mesma praia fica o Puka´s Surf Shop, com alguns dos shapers mais famosos do mundo, boas previsões de ondas e aluguel de equipamento de qualidade.

País Vasco, onde não pára de chover nunca

País Vasco, onde não pára de chover nunca

 

San Sebastian, linda e antipática

San Sebastian, linda e antipática… falta muito pra ser o Rio de Janeiro da Europa em termos de hospitalidade

Um recadinho de amizade

Um recadinho de amizade

Eu e Holly na bagunça em San Sebastian

 

“Estacionei” por 2 meses em Pamplona, região onde vivem alguns amigos, e por onde escalei também em Etxauri, no Vale de Roya e Pirineus. Por lá troquei alojamento por trabalho no Aloha Hostel, que mais parece apartamento de família de tão aconchegante. Viciei nos cookies do Cookie Shop, e virei cliente de carteirinha do bar El Mentidero, que considero ter os melhores pintxos do País Vasco.

As condições na temporada estiveram ruins na região, e no Carnaval desci pra região de Madri pra novamente escalar em Gredos, o que influenciou a decisão de abandonar o chuvoso e frio norte da Espanha e aproveitar um pouco do sol no sul. As poucas escaladas que consegui fazer nesse tempo estão relatadas aqui.

Holly, queridona inglesa que conheci em Pamplona

Holly, queridona inglesa que conheci em Pamplona em uma de nossas muitas noites geladas de baladas pelo Casco Viejo que terminavam em street samba

Meu "trabalho" em Pamplona

Meu “trabalho” em Pamplona

Juevintxos com novos amigos no El Mentidero

Juevintxos com novos amigos no El Mentidero

Queridona Filipa de Portugal, com quem dividi muitas angústias e alegrias, esquentando a bunda na calefação

Congelando em Roya

 

Reunião da cordada, pra reaquecer o coração, alegrar a mente e mudar os planos

Passei então 1 mês e meio na região de Múrcia, na casa do Alfonso, que escalou comigo o Ama Dablam. Apesar de estar com o cotovelo lesionado, escalamos mutias vias tradicionais em calcário na costa do Levante e alguns outros locais da região, e ainda fizemos uma pequena viagem para Tarifa, na região do estreito de Gibraltar, onde matei um pouco a vontade de surfar, e ainda conheci a cidade de Gibraltar, que descobri então, faz parte da Inglaterra.

Sandra, de Bullas, doidinha igual eu

Degustação de vinho em Bullas

 

Turma maluquésima em Tarifa

Na Espanha me locomovi principalmente de ônibus (mais barato) e trem, utilizando a Alsa e Renfe, respectivamente. Pra comprar equipamento, quase todas as grandes cidades tem boas lojas, mas principalmente em Madri é possível encontrar uma rua com várias, uma do lado da outra. A Barrabes é bem completa e foi onde consegui as botas que queria na numeração que queria.

Meu irmão mais novo e minha mais nova amiga

Meu novo irmão mais novo e minha mais nova amiga

 

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AS PESSOAS

 

Não me canso de escrever tantas vezes o quão especiais foram as pessoas que conheci nesses 12 meses. Com algumas tive uma conexão forte que não se repetiu quando nos vimos outra vez, mas com a maioria, quando visitei na Espanha, essa conexão ficou ainda mais forte. Principalmente se escalamos junto. No Brasil me sentia bastante deslocada, estando em um meio onde tudo gira em torno de betas, graus, ser magro, comer pouco, mandar, encadenar, “treinar à muorte”… como se o que eu fizesse fosse totalmente alienígena e irrelevante. Mas nessa viagem felizmente descobri que existe a turma do alpinismo, que fora do Brasil todas as “turmas” existem em paralelo e convivem bem. Com a turma do alpinismo me encaixei perfeitamente: com essa gente é normal ser viciado em treino cardio, em comer bem, em dormir cedo, em ver rocódromo como lazer e descanso, em ser viciado em equipamento, gelo e neve e enfim, todas aquelas manias que cada nicho de escalada tem. E felizmente, me parece o nicho menos machista de todos, ainda que mulheres sejam ainda mais minoria que em qualquer outra modalidade.

Nestes doze meses ganhei irmãos, irmãs, melhores amigos, melhores amigas, amores, pais, mães, sobrinhas, mentores, pupilos e pupilas. Do mesmo jeito que me deram um monte de conselhos, também foram inesquecíveis os momentos em que pude passar pra gente mais nova minhas experiências – de escalada e de vida – e mostrar pra muita gente que a vida não acaba depois dos 30. As caras de surpresa com a comprovação do fato ficarão pra sempre comigo. Não me esquecerei nunca de uma conversa com a Holly fora de um bar em San Sebastian, já umas 3 da manhã, morrendo de frio e se entupindo de vinho, quando ela entendeu que tem muita, mas muita vida depois dos 20 e poucos e 20 tantos anos… a menina teve uma epifania que vai ficar pra história!

Me vi como o futuro de alguns, e em outros vi meus possíveis futuros. Apesar de não poder prever nada, podemos saber mais ou menos onde estamos indo. Acho que continuo fazendo as escolhas certas.

 

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O COMEÇO DO FIM, UM NOVO COMEÇO

 

Os meses na Espanha não foram de clima de viagem em 100% do tempo. Apesar de estar trocando estadia por cama, ou de ficar na casa de amigos e quase não gastar, já sentia o dinheiro minguando, sentia falta de estabilidade, e queria parar por mais tempo em algum lugar, ainda que não eternamente. Principalmente depois de escolher o projeto pra 2016, de assessar meu condicionamento e fazer um pré-planejamento de custos para esse projeto, percebi que seria necessário começar a trabalhar duro pra fazer acontecer.

O inverno tinha acabado, a primavera é uma das épocas ideais para escalada alpina nos Alpes, e já que eu estava na Europa, iria fazer uma tentativa de tudo ou nada. O lugar que não estava nos planos e a cordilheira que talvez mais me intimida viraram uma realidade inesperada. Vim pra Chamonix, em em 5 dias consegui um emprego, um apartamento, e fiz uma via alpina clássica numa das importantes faces nortes dos Alpes (não sem um bom perrengue no meio, claro).

Ou seja, em Chamonix ficarei, por tempo indeterminado. Dá pra dizer então, que acabou a viagem, e recomeçou a vida de rotina. Foi bom enquanto durou, e apesar de minha estadia em Chamonix também ser “open ended”, estou feliz de saber que a viagem terminou dessa maneira inesperada, mas num local absolutamente especial.

A única razão que vejo pra tudo isso ter acontecido não passa perto de sorte, mas sim de já há vários anos estar trabalhando muito duro pra (re)construir minha vida. Jamais imaginaria passar tudo que passei nos últimos 12, 24, 36 meses. Menos ainda de estar morando na França, menos ainda em Chamonix. É, de verdade, uma grande surpresa estar aqui. A ficha ainda não caiu.

Agradeço muito a tudo e todos que fizeram parte de todo esse caminho até aqui.

Obrigada, gracias, merci, eskerrik asko, thank you, danke je well, terima kasih, namastê. Gratidão, sempre.

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Written by Cissa

Fanatic alpinist, rock climber, and wannabe surfer. Sports and travel content writer and graphic designer in the meantime. Self sponsored, based out of a haul bag.

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